quinta-feira, 8 de novembro de 2012

O NÓ DA MORTE E DA SEPARAÇÃO


Pálida e fria
Rouba-me tudo
Menos o medo arcaico
De ser sua vítima.
Vilã afável
Oferece repouso
Eterno repouso.
Nos seus braços
Só não serei furtada de mim
E sem ter ao que me agarrar
Separada de tudo que fui
Despida das obrigações
Restar-me-á apenas uma
Seguir incerta
Sem caminhos estabelecidos
Livre de tudo que fui
Cumprindo a sina de ser
Apenas eu mesma.
Passado o susto
De ter perdido
O que nunca foi meu
Refletindo sobre a vida
Que não me pertencerá mais
E que deveras nunca pertenceu
Perceberei o que não percebo agora:
A grande diferença entre vida e morte
É a ilusão que as separa




NÓ DA MORTE



Cecília vivia uma vida aparentemente tranquila, sem qualquer incômodo significativo que pudesse abalar a sua segurança. Juntamente com o marido e com o casal de filhos, projetou para si uma vida perfeita, sem percalços. A execução deste projeto de vida ia bem até que um furacão inesperado chegou varrendo toda a alegria e estabilidade que haviam construído. A mais dolorosa separação invadiu a sua casa levando o seu único filho e todos os projetos de vida com este. Depois deste terrível incidente, Cecília nunca mais conseguiu ser a mesma. Tornou-se uma mulher amarga, revoltada e sem afeto. Mesmo tendo ao seu lado o marido e a filha, dizia ter perdido tudo que possuía. Os dois se perguntavam surpresos e decepcionados: “O que significamos para ela”? Como resposta, obtinham dela a exclusividade de um vazio que nada cabia. Cecília só permitia preenche-lo com o filho perdido. Impossibilitada de preenchê-lo, utilizava a revolta para cavar cada vez mais fundo a sepultura de seu ser. Desejando ser apenas mãe do ente perdido, deixou de ser uma imensidão de coisas possíveis, dentre elas, mãe de sua filha e mulher de seu marido. Aquele incidente não levou apenas o seu filho, mas também a sua capacidade de enxergar, doar e se entregar. A vida perdeu a luz, a cor e o encanto. Afogou-se nas trevas de uma angústia que dilacerava o seu peito e a sua capacidade de amar. Querendo punir a vida, feria apenas a si mesma e a todos que a amavam. Tornou-se ausente e solitária. Infeliz, construiu à partir daquela tragédia um projeto também trágico –  “reclamar e se vitimar”.


Qual a maior dor que um ser humano pode suportar? Muitos diriam que a dor da separação imposta pela morte, ou, no mínimo, o temor desta. Até mesmo a tão falada dor do parto traz em si o sabor da primeira separação imposta ao nosso ser. A dor de uma doença que dilacera o nosso corpo, jamais será mais forte do que o temor da morte que nos espreita. A separação parece uma imposição vinda de fora, mas na verdade é sempre uma cicatriz antiga cravada no nosso mais profundo ser. Lutamos por mantê-la atada e multiplicamos a nossa guarda para que esta não seja atassalhada e transformada numa ferida que traga à alma a mais recusada dor. O desejo de querer eterno aquilo que deve ser efêmero ou o temor de separar o que empenhamos por manter junto faz com que aprendamos, desde muito cedo, a dar os nossos nós, alguma vezes, nós cegos difíceis de desatar.
Separação sempre foi um assunto tabu na nossa cultura. Melhor nem falar para não ter que enfrentá-la ou senti-la. Se tiver que falar, a técnica do “papagaio” ou da alienação é a mais segura para quem possui dificuldade de reflexão e elaboração.  Esta técnica consiste em repetir prontas citações que concedam a sensação de proteção. Ela é sempre o caminho escolhido por aqueles que carecem de discernimento e maturidade.
Há inúmeros chavões utilizados por aqueles que fogem da realidade. Vamos fazer uma reflexão sobre eles?
 “Foi Deus quem quis assim” é um discurso que justifica a nossa impotência. Colocamos desejos em Deus para que possamos controlar os nossos desregrados e irrealizáveis desejos. Concedemos a Deus o direito de desejar mais do que nós mesmos e a decidir o que temos ou não direito de conquistar. Assim, se por comodismo eu deixar de conquistar algo, é mais fácil dizer que Deus quis assim, pois não é nada bom ficar se resvalando em nossas arestas. Se há pessoas morrendo de fome, a sociedade é eximida desta responsabilidade se colocarmos em Deus este desejo sádico: torturar o ser humano com a fome e a miséria. É, também, mais aceitável perder para um Deus todo poderoso do que para um ser humano frágil, igual a nós mesmos ou por um ditador odiado porém temido. Assim, Deus passa a ser o grande ditador responsável por todas as mortes, separações, catástrofes e mazelas humanas. Enfim, passa a ter a  responsabilidade por tudo aquilo que julgamos não dar conta. E, se Deus quer assim, não preciso pensar no assunto ou fazer nada a respeito, pois nada é mais legítimo do que a vontade de Deus. 
 “Aquilo que Deus une o homem jamais separa” é um discurso que nos mantêm atados a relacionamentos ou situações extremamente doentias. Preservamos uma situação cômoda, que podendo ser rompida, jamais será nem mesmo mudada, pois foge aos interesses de pessoas preocupadas com seus egoísticos ganhos e não com o crescimento e bem estar de todas as partes envolvidas.
Ruim com ele, pior sem” nos protege da nossa temível condição de ser ou estar só, refletindo a nossa covardia e masoquismo frente e vida. Preservamos o nosso bode expiatório, senhor de nossas mágoas e de nossa eterna condição de vítima.
Encontrei a minha alma gêmea” nos traz a prazerosa sensação de estar pareado e unificado com alguém, encobrindo a nossa terrível dificuldade para lidar com as diferenças. Nos mantém atados ao prazer de estar apaixonado e não enxergar as diferenças e os defeitos que tanto nos incomoda no outro. Querer aquilo que é igual a nós mesmos demonstra o nível de nosso narcisismo. É como se quiséssemos nos casar com nós mesmos.
 E por aí vai; uma série de citações que nos possa manter cindidos e colados um no outro. Nada de laços afetivos. Nós afetivos são bem mais seguros. E, neste amontoado de nós, vamos criando um “bololô” danado. Desfazer vários nós embolados dá muito trabalho. A maioria não possui perseverança, paciência e coragem suficiente para enfrentar este tipo de trabalho. Sendo assim, optam pelas mazelas. Por que não optar pela saúde? Simplesmente, porque as nossas associações não permitem, ou seja, nos ameaçam muito mais do que nos protegem. Criamos associações perigosas relacionadas à separação. Uma delas é relacioná-la ao abandono. Esta associação errônea afasta a mais importante vivência e desafio que o ser humano necessita enfrentar – Estar só sem ser solitário, ser separado estando próximo e unido, ser indivíduo e participar da coletividade. São poucos os que conseguem viver esta paradoxal condição. 
Muitos associam separação à perda. A perda é inevitável, mas toda perda  nos presenteia com conquistas se formos sábios e soubermos direcionar o nosso olhar. A maioria passa uma vida inteira elaborando jogos que possam afastá-lo da temível condição de se sentir subtraído –“Não me tirem nada para que eu possa multiplicar meu encanto de viver” –  Estes jogos nem sempre são  limpos. Vale roubar para não ter que perder. Neste roubo, muitos saem furtados do maior bem que nos cabe por direito – a autonomia, integridade e liberdade. E, muitas vezes, somos furtados pelas pessoas que mais amamos; pelos nossos pais, nossos parceiros, etc. Quantas vezes nossa liberdade é trancada numa gaiola para conter a força de suas asas pelo medo do outro que diz nos amar. Estes aprisionamentos e furtos escondem o nosso temor da morte e da separação – temor de ver os nossos sonhos morrerem caso o outro voe mais alto do que as nossas asas são capazes de suportar.  
Associar separação à morte nos tira a energia de viver e batalhar pela nossa felicidade. Para não morrer, muitos matam. Matar nem sempre equivale a tirar a vida do outro, mas, sobretudo, tirar os prazeres que a vida oferece ao outro e  a si próprio. Parece até ser um crime em legítima defesa. Mas, na verdade, é um crime de legítimo egoísmo, possessividade e covardia.
Há aqueles que associam separação a pecado. Aliciados por algumas religiões, quantos casais optam por um infernal relacionamento, que não fere apenas a eles próprios, mas também aos filhos e demais pessoas envolvidas, para não ter que enfrentar o suposto pecado de se libertar e ao outro? Aliás, liberdade sempre incomodou e ameaçou muito a maioria das instituições religiosas. Sentindo-se culpados e numa tentativa desenfreada de reparar a sua culpa, muitas pessoas preparam uma cola bem possante que possa manter grudado aquilo que nasceu para viver separado. Grudados, perdem a mobilidade ganhando uma paralisia que os fazem sentir mais mortos do que vivos. E, mortos, acabam por temer ainda mais a morte ao invés de lutar pela vida.
A maioria das pessoas faz uma grande miscelânea de associações. Misturam abandono, perda, morte e pecado, dando nó sobre nó. Há também quem não queira se separar de ideias confusas, sentimentos doentios, padrões rígidos e valores ultrapassados, embolando ainda mais o que deveria estar desembaraçado.
Não há como negar o quanto as separações doem, principalmente quando elas não são desejadas. No entanto, há momentos cruciais da vida em que elas são necessárias para que possamos dar um novo direcionamento ao nosso ser. Tudo na natureza muda, não há nada estático e imutável. Assim, somos nós. Precisamos nos renovar. No processo de renovação, o desapego é imprescindível. Nos separamos do ontem a cada dia que nasce. Nos separamos do passado quando optamos pelo presente. Nos separamos daquilo que fomos para ser algo mais. Quando imobilizamos o nosso ser, criamos verdadeiras ameaças à nossa saúde física, emocional, mental e espiritual. Tornamos a corrente fluida da vida um verdadeiro esgoto de águas paradas repleto de lixos que deveriam ser descartados, mas que em função dos nossos apegos, preservamos dentro de nós adoecendo-nos. Existem os mais diversos tipos de lixos. Lixos físicos que circulam pelo nosso corpo em forma de toxinas, frutos de uma má alimentação e estilo de vida. Lixos emocionais provenientes de diversos tipos de sentimentos negativos, como ciúme e  a ira que destroem os nossos relacionamentos. Lixos mentais, fruto de ideias preconcebidas e preconceitos que já dizimaram milhões de pessoas pelo mundo afora. Enfim, temos verdadeiros lixões circulando pelo nosso ser, poluindo o nosso viver, sem que nos demos conta deles. O apego a estes lixões que deveriam ser descartados ou no mínimo reciclados nos impregnam com uma série de doenças. Precisamos ter a coragem de nos separar de pessoas, ideias, crenças, pensamentos, valores e sentimentos que nos fazem mal. Precisamos aceitar a morte daquilo que nos mata de forma sorrateira. A morte daquilo que nos impede crescer, faz renascer em nós um ser renovado e maduro. A morte é a manifestação de uma nova vida, portanto necessária. Há, com certeza, vida após a morte. Quem não acredita está cego e insensível a todas as manifestações que a vida nos apresenta a cada segundo. O nascimento de um dia é sempre precedido da morte do dia anterior. A morte da semente faz germinar a flor. A morte de um sentimento dentro da gente sempre culmina no nascimento de outro. O que acontece, na verdade, não é a morte, mas um eterno processo de transformação. Isto é vida após a morte. Portanto, há sempre morte após a vida e vida após a morte. E, neste processo de vida morte ou morte vida, estaremos sempre nos separando de algo.
Quando uma separação acontece precisamos enfrentá-la, jamais nega-la ou fugir dela. Ela sempre nos insere numa outra dimensão do nosso ser, consolidando uma nova etapa em nossa vida que não precisará ser melhor e nem mesmo pior que a anterior, apenas necessária ao nosso desenvolvimento.
Muitos, entretanto, forçam separações desnecessárias para fugir de uma maturidade que precisa ser alcançada numa determinada fase. Para este grupo de indivíduos, qualquer conflito, por menor que seja, sempre culmina numa separação. Hoje, a cultura do prazer a todo custo, nega a nossa relação com as dificuldades. Os que cultuam o prazer a todo custo, diante da menor frustração, separam-se de pessoas, trabalhos, lugares e vivências numa tentativa de buscar o deleite de uma vida imatura, sem problemas. Usam a máscara do desapego para esconder a sua face imatura. Por trás destas separações imaturas há o terrível medo de ter que aceitar a morte de uma parte do nosso ser que precisa amadurecer. É uma recusa em deixar a semente da maturidade brotar.  
 A vida sempre dá um jeito de nos situar frente a  realidade universal que envolve todos os seres indiscriminadamente. Em algum momento, coloca-nos diante de uma perda real, de um ente querido, por exemplo, onde não há dinheiro, posição social, título, poder ou qualquer empenho possível capaz de evitar. A história de Cecília demonstra uma das mais terríveis perdas que um ser humano é capaz de suportar. Mesmo que este tipo de perda ampute uma parte significativa do nosso ser, desmorone nossos mais valiosos sonhos, produza um vazio difícil de preencher e transforme a vida numa existência aparentemente sem sentido, é necessário seguir em frente e aceitar esta experiência por mais trágica que ele seja. Cecília não aceitou, e, como criança birrenta rejeitava tudo que a vida lhe pudesse oferecer em contestação ao desejo de ter o filho de volta. Passou a rejeitar a filha e o marido que tanto amava, como também todas as experiências agradáveis que curtia anteriormente. Foi perdendo, assim, a capacidade de amar, e quando o amor se esvai de dentro da gente, a dor aumenta e o discernimento diminui.  Quanto maior a dor, menor a nossa sensibilidade para apurar e perceber tudo a nossa volta. Neste ciclo vicioso, esta sofrida mulher demorou alguns anos para compreender, através de uma psicoterapia, o seu processo de vida. Desta compreensão, Cecília passou de criança birrenta para a maturidade. Ainda se sente amputada, mas sabe lidar com a parte que lhe falta sem precisar negar ou tirar do outro aquilo que pode com fartura oferecer: amor. Conseguiu também parar de se vitimar ao compreender que ao preservar o seu lugar de vítima teve, inevitavelmente, transformar muitas pessoas queridas em réus e o seu mundo num tribunal insuportável. Desapegar-se de uma vida que existia apenas no reino de suas fantasias foi o passo mais importante para libertar-se e viver a realidade. Por mais dura que seja a realidade, é necessário aceita-la para posteriormente transformá-la. Quando chega a separação ou a morte daquilo que demos a nossa vida, precisamos desconstruir um mundo maravilhoso que criamos dentro de nós. Precisamos ter forças para construir outro mundo tão maravilhoso quanto o anterior. Isto não é fácil; é um verdadeiro desafio.  Não é nada fácil demolir estruturas e pilares que nortearam o nosso ser por tanto tempo. No entanto, devemos nos alicerçar sempre na nossa capacidade de recomeçar. Alicerçados pela capacidade de regeneração e transformação, a morte jamais será o fim; será sempre um valioso recomeço.  Precisamos, nestas situações, aprender a lidar melhor com a nossa parte amputada sem ter que amputar o vasto restante de nosso ser com um ódio dilacerante. Precisamos, sobretudo, transcender a nossa impotência e  a nossa aparente condição incapacitante para redescobrir um ser ainda mais poderoso e forte dentro de nós.  
Para as Cecílias que rondam o nosso mundo se achando injustiçada pela vida, vale à pena prestar atenção na história abaixo onde a morte e a vida travam um interessante diálogo. Aliás, fica  também, duas perguntinhas básicas para mexer um pouquinho com seus neurônios: 1)Quem nasceu primeiro: A vida ou a morte?
2) Neste momento de sua existência, você está vivendo a vida ou a morte de uma vida anterior?
A vida nova está sempre nos rondando, embora recusemos sempre o seu convite. Nem sempre abrimos as portas para ela. Às vezes, preferimos viver o velório de uma vida que não nos cabe mais. E, sem enterra-la, ficamos ali, velando, velando eternamente... Melhor seria aceitar o convite de uma nova vida e viver eternamente...



ALMA GÊMEA

Vagando pelo universo, vida e morte se encontraram. Entreolhando-se com rabo de olho e tomadas pela curiosidade resolveram, finalmente, se aproximar e se conhecer. Ambas tiveram a mesma impressão; acharam a outra uma criatura estranha e ao mesmo tempo familiar, diferente de tudo que conheciam até então. O mais estranho é que uma atração irresistível brotou entre as duas, parecendo amor à primeira vista. Meio sem jeito, querendo iniciar uma conversa, a vida perguntou:

¾ Acho que te conheço.
¾ De onde? Perguntou a Morte.
¾ Não sei bem de onde...Completou a Vida.
¾ Éh! Você também não me é estranha. Qual o seu nome?
¾ Meu nome é Morte. Respondeu a Vida.
¾ Muito prazer! O meu é Vida. Respondeu a Morte.
¾ Onde você mora? Perguntou a Vida.
¾ Moro no universo e trabalho no planeta Terra. Respondeu a Morte.
¾ Que coincidência! Eu também.
¾ Mas como é que pode a gente não ter nunca se encontrado? Indagaram as duas mutuamente.
¾ Na verdade eu lhe disse que você não me é estranha... Relembrou Vida à Morte.
¾ Só falta a gente trabalhar no mesmo lugar e fazer as mesmas coisas.
¾ O que é que você faz lá na terra? Perguntou a Morte.
¾ Sou professora. Respondeu Vida cheia de orgulho.
¾ Não é possível, eu também sou! Exaltou-se Morte indignada com tamanha coincidência – Qual a sua linha de trabalho?
¾ Sigo o  currículo existencial. Respondeu Vida.  
¾ Deveras? Eu também estou totalmente envolvida com ele.
¾ Ele é maravilhoso, você não acha? Apesar de algumas dificuldades... Aliás, já que fazemos as mesmas coisas, podemos trocar algumas figurinhas. Dentro deste currículo, qual a matéria que você tem tido mais dificuldade em ministrar? Só falta termos as mesmas dificuldades.
 ¾ O nível básico de Humanidade não tem sido nada fácil ministrar. A maioria dos alunos possui uma grande dificuldade para assimilar.
À medida que a conversa fluía, Morte parecia cada vez mais surpresa com aquela coincidência. Jamais poderia supor que existisse outro ser tão parecido consigo mesma e fazendo as mesmas coisas. Parecia uma alma gêmea. Já ouvira falar em alma gêmea, aquela outra parte de nós mesmos que vaga pelo mundo à procura de sua outra metade, mas nunca dera atenção a isto. Para ela, este tipo de assunto não passava de um mito. Sem compreender ainda aquele fenômeno de identidade mútua, preferiu continuar a conversa para que um vínculo cada vez maior pudesse brotar entre as duas.
  ¾ Sei que Humanidade é, no planeta Terra, o aprendizado mais importante deste momento cósmico, mas não podia supor que existiam outros seres ministrando a mesma prática que eu achava ser uma exclusividade minha. Isto me deixa mais tranquila, pois sempre me preocupei muito com aquelas criaturas que resistem a este aprendizado e passam adiante sem aparentemente ter aprendido o suficiente para se tornarem verdadeiramente humanos.
Vida esboçou um sorriso tranquilo como se tivesse também tirado um peso das costas e continuou:
¾ Agora estou vendo que o grande diretor desta escola não vai fornecer diploma de humanidade a ninguém que não o mereça de fato. Parece que ele cerca de todos os lados.
¾ Acho que estou começando a compreender... Já estamos trocando figurinhas à muito tempo, passamos a eternidade nos  ajudando mutuamente e não percebemos isto. Divagou a Morte.
¾ Como assim?
¾ O aprendiz passa de você para mim, de mim para você continuamente. Só o ambiente é que muda, a proposta continua sendo a mesma. Ele só chega às vezes com uma cara diferente por ter a cada etapa amadurecido um pouco mais. Explicou Morte.
¾ Bem que eu desconfiava! Tem aluno que me parece muito familiar... Refletiu Vida.
¾ Com que tipo de aluno você tem mais dificuldade? Perguntou Morte.
¾ Com aquele que se julga o diretor da escola. Quer impor as próprias regras. São totalmente apegados  ao poder que  julgam possuir. Orgulhosos e pedantes, não se despem de seus interesses mesquinhos.
¾ Esse tipo de aluno exige da gente mais rigor, são os que mais precisam de limites. E, por cumprirmos o nosso dever de oferecermos a eles o que necessitam e não o que ilusoriamente desejam, reagem quase sempre como crianças birrentas e revoltadas.
¾ Até parece que agente dá ouvidos às birras. Ironizou Vida.
¾ Pior são aqueles que estão sempre se vitimando, achando que são os únicos a serem premiados com as lições mais difíceis. O mais complicado é que eles não enxergam tais lições como um prêmio frente ao crescimento, mas como um castigo. Salientou a Morte.
¾ Ao contrário dos outros, estão profundamente apegados à condição de vítima. São na verdade aqueles que só apreciam as lições fáceis. Acabam se tornando tão medíocres que mesmo as mais fáceis lições acabam se tornando penosas. Apesar da gente ter que concordar que há algumas lições deveras complicadas... Ponderou Vida.
¾ Mas, este é o preço da formação que eles se propuseram conquistar. Quem não desejar diploma de humano que opte então por níveis mais prematuros de ser. Sabemos que não é pior e nem mesmo melhor ser uma coisa ou outra. É simplesmente uma questão de escolha; uma condição e uma opção daquele momento existencial que deve ser respeitada. Eu sempre respeitei cada nível de aprendizado de meus alunos, nunca ofereci além ou aquém daquilo que eles realmente necessitam para transcender.
¾ Transcender cada etapa do aprendizado não é realmente uma tarefa fácil, mas é, de certa forma, fascinante, e tem aluno que aprecia bastante. Aliás, que tipo de aluno te dá mais prazer ensinar? Perguntou Vida.
¾ Adoro ensinar a todos, mas é fascinante trabalhar com quem valoriza aquilo que você tem a oferecer sem desprezar as valiosas doses de conhecimentos que oferecemos a cada segundo. Por mais difíceis que sejam, são imprescindíveis na conquista da sabedoria. Respondeu Morte denotando intenso prazer em seu ofício de ensinar.
¾ Parece que estes seres percebem, desde cedo, que ter o professor como um aliado e não como um rival é um ótimo instrumento que auxilia na construção desta sabedoria. Reforçou Vida.
¾ Ufa! Que batalha bonita a nossa! Engraçado, à medida que você fala eu me vejo em você. Refletiu Morte olhando profundamente nos olhos da Vida.
Instaurou-se um profundo silêncio. Repentinamente, Vida fitou mais fixamente a Morte nos olhos como se houvesse descoberto algo novo e com um sorriso meigo continuou:
¾ Sabe o que eu estou achando mais interessante nesta história toda?
¾ Acho que sei, pois tudo que você vive eu vivo e vice versa. Completou a Morte.
¾ Então, me fale o que é mais interessante nesta história. Perguntou Vida curiosa.
¾ Acho descobrimos duas coisas importantíssimas – a visão distorcida que o ser humano criou sobre a gente e a nova visão que podemos ter sobre a nossa verdadeira essência e missão. Respondeu Morte
¾ Eu descobri que não precisamos mais nos preocupar tanto com a formação de nossos alunos, pois... Antes que Vida continuasse, Morte deu prosseguimento à sua fala:
¾ Somos complementares, uma continuidade de nós mesmos e não...
¾ Opostos como muitos humanos nos enxergam e...
¾ Tudo que não der tempo para você fazer eu farei por você e...
¾ Tudo que não der tempo para eu fazer, você fará por mim.
—Estamos unidas numa mesma missão.
—Mais juntas do que poderíamos supor.
—Entretanto...
—Precisamos agora nos separar...
—Para continuarmos unidas para sempre.
—Pois não somos simbiose.
—Somos Vida e Morte.
—A cara e a coroa da moeda que rege o universo.
Emocionadas com tamanha identidade e compreensão, Morte e Vida deram um profundo abraço e ficaram ali, juntinhas, parecendo ser na verdade uma coisa só. Dizem que à partir daquele momento elas se fortaleceram ainda mais e ninguém as separou jamais. A mediocridade humana até que tenta, no entanto, a consciência, em suas sábias histórias, conta que Vida e Morte são almas gêmeas inseparáveis e que o grande diretor da escola onde elas trabalham provocou, propositadamente, este encontro para fortalecer ainda mais o elo entre as duas e enfraquecer a indisciplina dos alunos mais rebeldes.


ESPAÇO DE REFLEXÃO


Se deseja compreender por que motivo teme a morte ou por que motivo tem se sentido sem vida, marque com um “x” as características abaixo que se adequam a você.

(  ) Tenho deixado de viver coisas importantes em minha vida – aquelas que realmente  valorizo.
(  ) Não aproveito o que a vida tem de melhor para me oferecer. Foco, por demais, nas piores coisas que me vem acontecendo.
(  ) Vivo num ambiente triste.
(  ) Nunca questionei os conceitos negativos sobre a morte que foram a mim repassados.
(  ) Não acredito numa vida após a morte.
(  ) Acredito num Deus punitivo.
(  ) Não tenho consciência da minha verdadeira missão nesta vida.
(  ) Tenho consciência da minha missão, mas não estou exercendo-a.
(  ) Não acredito na evolução dos seres humanos.
(  )Acredito que estamos na vida apenas para pagar os nossos karmas negativos  e sofrer.
(  )Evito sempre qualquer assunto que diga respeito à morte.
(  )Tenho dificuldade para lidar com mudanças.
(  )Sou possessivo e apegado a pessoas e coisas.
( )Não enfrento as separações necessárias. Retardo-as, nego ou fujo a todo custo das     mesmas.
(  )Não exerço a minha liberdade. Coloco nas mãos do outro a minha própria vida.
(  )Exijo que a minha vida siga sempre do jeito que eu planejei ou sonhei.
( )Não sei ou não admito mudar o planejamento de meus sonhos, caso isto seja necessário. 
(  ) Meu sonho não é simplesmente um sonho; é uma exigência.
(  )Dificilmente aceito uma realidade diferente daquela que imaginei.
(  )Evito me entregar para não ter depois que separar.
(  ) Me sinto sempre a vítima, jamais a responsável pelas dificuldades de minha vida.
(  ) Nunca percebi que vida e morte são na verdade uma coisa só, ou seja, duas faces de uma mesma moeda.
(  ) Não consigo perceber que nasço e morro todos os dias.
(  ) O meu corpo e as coisas que adquiri nesta vida são mais importantes que minha alma.
 (  ) Não consigo perceber ou sentir o meu espírito.


OBS> Clique abaixo para ler temas similares:

Capítulo do "Desapego" do livro Cardápio da Alma

http://cardapiodaalma.blogspot.com.br/2012/05/agarrado-ao-outro-e-atrelado-ao-medo.html

A Sobremesa do capítulo Gratidão do livro Cardápio da Alma
http://cardapiodaalma.blogspot.com.br/2012/11/deus-nao-possui-dividas-e-nem-creditos.html


A história "A Estrelinha que descobriu o mistério da Vida e da Morte" do Livro Histórias que Curam
http://historiasquecuram.blogspot.com.br/2012_11_01_archive.html




  

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

O NÓ DO DESPREZO


FALO BRASILEIRO

MUITO MAL O PORTUGUÊS

FALO ESTRANGEIRO

E ESQUEÇO O RESTO

ESQUECIDO DO QUE SOU

I’ DON’T KNOW MAIS NADA


BRASILEIRO CAIPIRA

PORTUGUÊS ULTRAPASSADO

ESTRANGEIRO CHIQUE

OH MAY GOD

QUE LOUCURA!

HELP!


LÍNGUA BRASILEIRA

LÍNGUA PORTUGUESA

LÍNGUA ESTRANGEIRA

SÃO TANTAS AS LÍNGUAS NUMA SÓ

QUE JÁ NÃO SEI MAIS

QUAL A MINHA


FALE BEM O INGLÊS

OU CHERAP

MAL O PORTUGUÊS

E CALE A BOCA

O BRASILEIRO PARA O GASTO

PSIU!


COMO HAMBURGER

CAGO SANDUÍCHE

DELICIO RUFFLES

VOMITO BATATAS

ALIMENTO-ME COM HOT DOG

ARROTO CACHORRO QUENTE


INTERVALO PARA COFFE-BRACKE

PARADA PARA O LANCHE

SALE PARA OS RICOS

LIQUIDAÇÃO PARA OS POBRES

MERCHENDAIZE PARA SOCITE

PROPAGANDA PRA RALÉ



RESIDO-ME EM LOFT

ABRIGO-ME EM APARTAMENTO

ROUPAS NO CLOSET

BUGIGANGAS NO ARMÁRIO

BANHO-ME NA SWITE

DEFECO NO BANHEIRO


EXPONHO BANERS

PENDURO CARTAZES

ENVIO FOLDERS

ESPALHO FOLHETOS

PROMOVO WORKSHOPS

FAÇO ENCONTROS


E, PARA FINALIZAR

NÃO SEI MAIS O QUE FALAR

SEI QUE FALO INGLÊS

SOU BRASILEIRO

DA LÍNGUA PORTUGUESA

PORTANTO, THE END.


Clique em http://youtu.be/P8PVaZQKibI para ouvir a música criada à partir desta poesia pelo músico João Cantiber e pela cantora Mari Blue

O NÓ DO DESPREZO



A história que vou lhes contar é minha, talvez, sua também. Já aconteceu várias vezes aqui no Rio de Janeiro, no famoso calçadão de Copacabana. Todavia, acontece também, por todo Brasil, nas vitrines de lojas, enfim, em cada esquina onde a informação veicula e na boca de muita gente.

Será que o calçadão é nosso ou dos turistas internacionais. O ideal é que fosse de todos. No entanto, nem sempre me senti uma brasileira em alguns eventos importantes que aconteceram por aqui. Em vários deles, me senti em outro país, principalmente no que diz respeito à forma como as informações foram transmitidas. Olhando para os cartazes e faixas espalhados por vários locais do calçadão e palcos onde shows seriam realizados, me vi várias vezes perdida sem saber qual evento seria realizado. Por incrível que pareça, não foi utilizada a língua portuguesa para veicular a informação; apenas o inglês. Será que os organizadores destes eventos se esqueceram que estavam no Brasil? Será que acharam que a nossa língua oficial era o inglês? Ou será que menosprezam ou desprezam a nossa cultura e a grande maioria do povo brasileiro? Será que todos os brasileiros que frequentam a praia de Copacabana dominam o inglês? E, mais... Será que todos os turistas internacionais possuem também este domínio? É óbvio que não! Como é que uma secretaria de cultura pôde permitir um desrespeito deste à nossa identidade e à nossa língua? Como pôde acontecer isto dentro do nosso próprio território? Acho fundamental que todas as informações, principalmente numa cidade turística, sejam repassadas em várias línguas diferentes de maneira a facilitar a compreensão de tudo que o evento queira repassar para o público. Mas, parece que se esquecem do português com bastante frequência. Quantas vezes, tive que pedir ajuda a pessoas que falavam o inglês fluentemente para traduzir cartazes e faixas espalhadas pelo calçadão. Fiquei imaginando o número de pessoas que estariam transitando por ali com as mesmas dificuldades. Lamentando o fato, alguns brasileiros me aconselharam com uma pedante convicção: “Voce é quem está ultrapassada. Faça inglês se quiser compreender!”

Muitos brasileiros são mal avaliados e sofrem, de certa forma, um certo preconceito por não terem o domínio de outras línguas estrangeiras, principalmente o inglês. É constrangedor! Concordo plenamente que nos enriquecemos muito com o domínio de outras línguas estrangeiras, no entanto, quantos brasileiros podem ter acesso aos cursos de língua estrangeira neste país? Se estamos lutando ainda por uma educação para todos; se estamos ainda lutando para reduzir  o índice de analfabetismo em nosso país; se grande parte de nosso povo não consegue ainda decifrar a língua portuguesa; como podemos cobrar de nosso povo o domínio de uma língua que não seja a nossa? E tem mais... Daqueles que podem ter acesso aos cursos de língua estrangeira, quantos deles realmente querem isto? Dentro deste país, que ainda se chama Brasil, acho que poderíamos esperar, no mínimo, o respeito àqueles que possuem ainda a liberdade e o desejo de querer falar a própria língua.



O desprezo é sempre dirigido àquilo que subestimamos ou julgamos menor. Dói muito constatar que uma língua tão bonita quanto o português estará fadada ao esquecimento se não respeitarmos a nossa identidade. Usei a nossa língua como um exemplo, pois me deparo frequentemente com pessoas que já não conseguem mais encontrar palavras em português para designar termos muito simples. Percebo que o esforço é bem maior para buscar no inglês expressões ou palavras que o nosso dicionário e gramática oferecem com tanta fartura. Menosprezamos nossa riqueza linguística, dentre muitas outras que se perdem e se perderam por aí. Quero salientar que não sou contra a utilização de outras línguas no nosso universo linguístico; pelo contrário, acredito que esta abertura seja por demais enriquecedora. Só não acho justo uma abertura unilateral onde o universo estrangeiro engole aquilo que temos de mais valioso e nos faça esquecer aquilo que somos.  

O desprezo é uma erva daninha capaz de nascer em qualquer jardim. Nem sempre achamos que uma pessoa comum possa ter um tesouro a nos oferecer. Sabem por que? Porque o nosso egocentrismo não deixa. Inflamos o nosso ego para não perceber a riqueza do outro, enxergando apenas aquilo que a nossa arrogância medíocre permite. Os padrões sociais de valorização pessoal também nos ensinaram que é necessário  brilhar muito para  receber apreço e credibilidade. É necessário brilhar com títulos, poder, dinheiro, status, enfim com uma série de futilidades que não mostram o verdadeiro valor de um homem. Criou-se, à partir destes critérios sociais, as profissões mais importantes e as menos importantes, bem como pessoas, cargos, assuntos, idiomas, etc. Tudo passou a ser uma questão de mercado. A importância atribuída a algo é diretamente proporcional ao montante de dinheiro que gira ao redor daquilo. Sedentos por um lugar no ranking social, passamos a focar a nossa atenção apenas naquilo possa nos garantir uma posição privilegiada ou no mínimo segura. Focando a nossa atenção apenas nestas coisas, desfocamos para outras muito importantes e nos cegamos para o essencial. Muitas virtudes essenciais ao nosso desenvolvimento espiritual e humanitário são descartadas ou no mínimo, ficam relegadas em segundo plano. A simplicidade perde seu espaço para a sofisticação e complexidade; a sinceridade perde espaço para a falsidade e por aí vai. Fingimos ser aquilo que a sociedade privilegia e deixamos de ser nós mesmos. Com isso, somos capazes de desprezar riquezas incomensuráveis, tais como a nossa cultura, nossa língua, enfim nossos valores mais profundos. Tornamo-nos superficiais e pedantes.

Para mostrar o nosso desprezo, humilhamos quem é simples, ou mais precisamente, quem nos mostra aquilo que insistimos negar dentro de nós mesmos. O nosso desprezo é uma maneira perversa de dizer: “Eu sei o que você não sabe” ou “Eu sou o que você não conseguiu ser”. No entanto, nas profundezas do nosso inconsciente, num lugar onde não há espaço para a falsidade, estamos dizendo com todas as letras: “Temo não saber” ou “Temo não ser reconhecido”.

Fico muito preocupada quando vejo a nossa cultura e nossa língua ser desprezada dentro de nosso próprio país. Se lá fora ela não vale tanto, deveríamos, no mínimo, reconhece-la e valoriza-la nos limites de nossa Terra, se é que temos alguma. Muitos se preocupam com o risco de nações estrangeiras tomarem o nosso chão. No entanto, nossa língua está sendo roubada dentro de nosso próprio território e ninguém diz nada. Talvez possam dizer um dia: Stop! Este silêncio é uma consequência daquilo que restou de nosso idioma. Com a língua roubada, nos resta a mudez. A melhor maneira de escravizar um povo é roubando dele a sua identidade. Estamos perdendo a nossa identidade brasileira. Achamos bonito ser como o povo de fora, das ditas nações desenvolvidas. Temos vergonha de nós mesmos. Temos muitos motivos para nos envergonhar, mas não podemos esquecer que temos também, muitos motivos para nos orgulhar de nós mesmos. Somos como qualquer nação, cheia de erros e acertos. Se estivermos errando, precisamos cobrar de todos os brasileiros uma postura mais acertada. Não é desprezando o nosso país que iremos reerguê-lo. Precisamos aprender a lutar contra os estrangeiros e brasileiros desnaturados que nos dão rasteiras. E, o melhor golpe é reconhecer a nossa cidadania brasileira apropriando, de fato, da riqueza de ser brasileiro. Somos uma nação nova que precisa ainda crescer muito. Precisamos aprender também com todas as nações do mundo, sejam elas mais ou menos desenvolvidas do que nós. Precisamos de exemplos, porém sem perdermos a nossa identidade. O mesmo vale para cada indivíduo. Todo ser tem os seus recursos e as suas limitações. O reconhecimento de si mesmo e do outro é o primeiro passo em nosso processo evolutivo.

Aquilo que parece pequeno pode ser grandioso; tão grande que os nossos olhos débeis não conseguem enxergar por inteiro. Frequentemente, enxergamos apenas a parte do todo que nos interessa e  criamos a falsa ilusão de que conhecemos a realidade. Agarramo-nos a esta ilusão com toda prepotência para não sentirmos impotentes e pequenos demais. Diante do todo, tudo é importante e nada é mais importante.  Assim, aquilo que não parece ser valioso segundo as lentes de nosso desprezo é, na verdade, muito mais do que conseguimos apreender. Só a humildade é capaz de nos situar frente a realidade,  nos proteger de nossa arrogância e recuperar a nossa visão.

Tomados pela arrogância, desprezamos além de nossa identidade, muitas riquezas importantes. Desprezamos aqueles que erroneamente julgamos inferiores. Desprezamos a natureza por acreditar que ela está fadada a nos servir. Desprezamos a nós mesmos quando não possuímos auto-estima suficiente. Nossos preconceitos sustentam o desprezo que sentimos. Precisamos aprender a nos relacionar com tudo e com todos. Precisamos aprender a doar e receber.  E, lembrar sempre: Aquilo que desprezo é, na verdade, o que mais  temo nas profundezas de meu ser.”

Se você é daqueles que usa o desprezo para se sentir maior do que aqueles que você julga menor que você, talvez a história abaixo possa lhe ensinar a valorizar “aquilo que não parece ser ou ter valor”. Esta história, ao contrário de todas as historinhas inventadas por mim, foi, na verdade, um acontecimento ocorrido com meu pai a muitos anos atrás quando ele iniciou a sua vida profissional. Em alguns momentos, tem história verdadeira que parece história inventada.



O Anjo da Estrada


Parados na estrada a várias horas, sem saber o que fazer com  um caminhão enguiçado insistindo em não funcionar, três homens, já cansados e prestes a desistir do problema, foram abordados por uma criança curiosa:

-Moço, o que aconteceu com seu caminhão?

-Some daqui, menino! Berrou o assistente do motorista sem dar a mínima atenção ao menino e  bastante incomodado com a presença do mesmo.

Antes que o menino fosse embora carregando desapontamento e humilhação, o motorista, dono do caminhão, o chamou carinhosamente:

-Ei, garoto! Não liga para este moço não, ele é muito ignorante. O meu caminhão deu defeito, mas não sabemos ainda o que aconteceu. De repente, ele parou de funcionar... O mecânico já chegou para resolver o problema, mas não  conseguiu ainda descobrir o defeito.

O garoto deu uma olhada no motor do veículo como se entendesse de mecânica, e falou:

-Sabe o que é, moço... Outro dia o caminhão do meu tio também parou de funcionar assim, sem mais nem menos. Aí, eles deram uma balançada nele e ele começou a funcionar de novo.

-Balançada? Como assim? Perguntou o motorista achando estranho o comentário do garoto.

-Ah, moço... Eu até achei esquisito, mas deu certo. Juntou um monte de gente e começaram a balançar de um lado para o outro. Depois disto, viraram a chave e pronto. O motor funcionou direitinho.

Antes que o menino continuasse dando suas explicações, o mecânico olhou animado para o motorista sugerindo:

-Acho que pode dar certo. Vamos tentar? Vocês dois balançam de um lado e eu balanço do outro. Quem sabe...

O assistente do motorista franziu a testa desanimado e com ironia continuou:

 - Deixa de brincadeira, desde quando esse pedaço de gente sabe alguma coisa ?

- Mas, faz sentido o que ele falou - justificou o mecânico.

-Faz sentido nada! Resmungou o assistente.

-Se faz ou não faz, eu quero tentar. Até esse momento, pelo que eu sei, você trabalha para mim. Vamos lá, faça a sua parte, ajude a balançar! Determinou o dono do caminhão.

Muito a contra gosto, o assistente ajudou a balançar o veículo. O garoto sentindo-se considerado e cheio de moral pôs-se a ajudar oferecendo a sua força de criança, porém revestida com uma determinação de adulto. Antes que o mal educado assistente pudesse novamente oferecer a sua ironia, o motorista correu até a cabine e virou a chave. O caminhão estremeceu-se todo, roncou forte como se quisesse dizer:

-Funcionei!

O dono do caminhão olhou no fundo dos olhos de seu assistente dizendo:

- Nunca duvide da boa vontade e da sabedoria de uma criança.

O assistente não sabia onde esconder a sua cara. Da ironia ao espanto, engoliu seco e com seu olhar no chão, não teve a coragem e nem mesmo a humildade de pedir desculpa ao garoto que salvou o seu dia. No entanto, o dono do caminhão se aproximou do garoto e externando gratidão disse:

-Muito bom! Senão fosse por você, ficaríamos nesta estrada até sei lá quando...

-É verdade! Confirmou o mecânico.

O dono do caminhão lhe ofereceu uma boa gorjeta, mas o que o garoto queria mesmo, já tinha conseguido: ajudar e ser reconhecido.

Quando ouço histórias assim, fico pensando até que ponto este garoto não era um anjo da  guarda querendo não somente ajudar, mas sobretudo dar o seu recado:

"Não subestime nada e ninguém. Por menor que possam parecer, as pequenas coisas podem nos trazer grandes soluções".



ESPAÇO DE REFLEXÃO



Marque abaixo as atitudes que você adota, mesmo que eventualmente. Depois desta reflexão, esforce-se para não continuar desprezando pessoas ou situações que poderão torna-lo um ser  mais humano que realmente preza a vida que lhe foi confiada.


(  ) Me acho mais importante que certas pessoas

( ) Não possuo desejo ou tempo para escutar pessoas socialmente consideradas inferiores a mim

(  ) Acho que crianças, empregados ou “subalternos” foram feitos apenas para obedecer

(  ) Não levo a sério o que  crianças falam por considera-las imaturas

(  ) Acho os “velhos” ultrapassados

(  ) Sempre achei meus pais caretas, bem como as pessoas da idade deles

(  ) Adolescentes são tolos aborrecentes

(  ) Sinto vergonha de me relacionar com pessoas muito simples

(  ) Menosprezo os conhecimentos populares

(  ) Acho minha língua “brega’, por isso, utilizo com bastante frequência palavras estrangeiras para passar uma impressão de que sou sofisticado

(  ) Subestimo pessoas com baixo nível de instrução

( ) Rejeito pessoas de grupos sociais, raciais, religiosos e culturais diferentes do meu

( ) Tenho uma grande tendência a valorizar apenas os países ditos desenvolvidos, ou estados e  cidades mais desenvolvidas que a minha

(  ) Não me interesso pela história ou cultura dos ditos países de 3º mundo

(  ) Valorizo apenas quem é hierarquicamente igual ou superior a mim




DESAFIO


Escolha uma pessoa que voce julga inferior a voce em algum aspecto e se dedique a conversar profundamente com ela durante, pelo menos, uma hora. Procure identificar um potencial bem desenvolvido na mesma e pouco desenvolvido em voce. Feito isto, a distância entre voces diminuirá significativamente.

domingo, 26 de agosto de 2012

O NÓ DO SEXUALISMO




QUANDO VOCÊ SE ARREBENTA EM MIM

CHEIRANDO MAREZIA

NESTE MAR DE DESEJOS

EU TAMBEM ME ARREBENTO

NUMA ONDA DE PRAZER


QUANDO SOU BANHADA

POR ESTA ÁGUA SALGADA QUE FLUTUA

PELO SEU CORPO ESCORREGADIO

A MARE SOBE, INUNDANDO-ME

E EU ME  MOLHO DE DESEJO POR TI


QUANDO SEUS URRANTES DESEJOS

 SE QUEBRAM EM MIM

ESPARRAMANDO A ESPUMA BRANCA DE SEU PRAZER

NO LEITO DE MEU CORPO

DELEITO-ME


AMACIO E TE ABSORVO

COMO A AREIA DO MAR

TE ACOLHO E TE CONTENHO

COMO SE FOSSE A VALIOSA PÉROLA

NA CONCHA DE MEU CORAÇÃO


O INFINITO PRAZER

QUE MEUS OLHOS NÃO ALCANÇAM

FAZEM VIBRAR MINH’ALMA

COM A EXPLOSÃO

DE TUDO QUE FICOU CONTIDO



O NÓ DO SEXUALISMO


     César era um homem que vivia checando seu poder sexual. Era o famoso garanhão. Por ser um homem bonito, atraente e expert na arte da sedução, todas as mulheres que encontrava se tornavam uma presa sexual fácil. Durante suas relações sexuais, César olhava com orgulho para seu pênis ereto e despejava sobre suas fêmeas porções ilimitadas de seu fértil esperma. Durante anos, César viveu assim, checando seu poder a cada relação e olhando sua própria imagem refletida no espelho que cada mulher apaixonada lhe oferecia. As mulheres se apaixonavam por César, mas nenhuma delas era mais apaixonada por sua imagem do que ele próprio. Ele era um verdadeiro narcisista. Centrado apenas em si, não conseguia enxergar a mulher com a qual copulava. Conferia o seu poder sexual, mas jamais os seus sentimentos, ideias e emoções capazes de construir uma relação afetiva.

César sabia “trepar” como ninguém, só não sabia se relacionar. Em seu círculo machista de amizades, sentia-se o máximo e se comprazia em dizer aos amigos as incontáveis relações que conseguia ter num dia, numa semana ou num mês. Vangloriava-se, inclusive, dos filhos que espalhava pelo mundo em suas incontáveis aventuras sexuais. Fazer filhos era, também, uma forma de poder e de se sentir mais macho. Só não conseguia ser pai, assumir este papel e se sentir como tal. Parecia estar internamente competindo com alguém, só não se dava conta com quem. Quem seria o adversário de César? Com quem César competia? As súditas mulheres com as quais copulava lhe faziam sentir um verdadeiro rei; um rei soberano aparentemente sem conflitos, pois seus conflitos insistiam em ficar escondidos em algum lugar inacessível de seu ser. Mas, um dia, César perdeu a majestade. Como? Umas das mulheres com a qual resolveu copular negou-lhe apresentar seu falso espelho. Diante disto, para onde César iria direcionar seu olhar? Aquela maldita mulher lhe negou a visão de seu pênis ereto e de seu substancial esperma. Naquele dia, a coroa caiu; de rei viveu a posição de miserável. Sua soberania foi substituída pela impotência. E agora? E se todas as mulheres lhe negassem, novamente, o espelho? Da certeza, juntou-se a incerteza e o medo. César preferiu se resguardar, pois jamais poderia experimentar novamente a traumática vivência de não ver seu pênis ereto e despejar seu poder e sua fertilidade no ventre feminino. O feminino antes tão frágil se transformou num espaço ameaçador. Sem ereção, curvou-se para o medo. O medo de enxergar a sua disfunção erétil,  cegou-lhe também para muitas coisas. Não conseguia enxergar o verdadeiro homem que lhe habitava. Sentia estar perdendo o poder em tudo. Produzir, relacionar-se, criar já não era uma tarefa fácil, pelo contrário, parecia praticamente impossível. Com a fantasia do impossível habitando sua mente, tornou-se a cada dia mais impotente e distante de tudo. Afastar-se da realidade era a única forma que conhecia de se preservar. E assim, foi falindo no trabalho, nos relacionamentos, enfim, decretou falência para com a própria vida. Pela primeira vez, experimentou a sensação terrível de não Ter Poder, de não Ser o Poder.

Odiou a mulher que lhe negou o espelho até que teve um sonho. Sonhou que vivia cercado de espelhos. Enxergava apenas a si mesmo. Viveu neste sonho a ilusória satisfação de ser o centro das atenções até que uma criança arremessou sobre seus espelhos uma pedra, estilhaçando-os. César teve ódio daquela criança até olhar bem nos olhos dela, fazendo uma importante descoberta. Aquela criança levada era ele mesmo. Viu que o olhar daquela criança, frágil e carente, pedia algo mais. Quando os espelhos quebraram, César se feriu, mas logo em seguida, olhando ao seu redor, enxergou pela primeira vez um mundo amplo e diversificado. César viu, pela primeira vez, algo mais do que ele próprio e se admirou com sua nova visão de vida. Compreendeu que este novo mundo era, com certeza, um grande desafio; aceitou este desafio sem a intenção de vencer, mas sobretudo, com claras intenções de crescer – Cresceu.

Depois deste sonho, César aprendeu a se relacionar com o mundo que cada mulher carregava dentro de si. Relacionando com este mundo, ele aprendeu muito mais com sua parceira e sobre si mesmo. Aprendendo, sentiu-se mais seguro e forte. Sentindo-se mais seguro e forte, o seu pênis se pôs, novamente,  em posição ereta, próprio de quem se sentia digno de estar vivendo um momento sagrado. Finalmente, passou a despejar não só o seu sêmen mas,  principalmente, toda a satisfação de ter vivenciado uma relação plena e profunda. Hoje, ele não precisa de inúmeras mulheres para se sentir homem; aliás, uma só mulher tornou-se capaz de lhe proporcionar a sua maior conquista. Hoje, seu objetivo não é gozar/ejacular, mas vivenciar e usufruir o amplo universo que lhe habita e que habita sua parceira. Gozar é apenas uma consequência disto tudo.


      Quantas pessoas saem à caça de parceiros como se estivessem competindo com alguém. Hoje é muito comum ouvirmos rapazes e moças exibirem a lista de pessoas que conseguiram caçar numa noite. Beijam e transam compulsivamente, sem qualidade e sem respeito pelo parceiro e por si mesmo. Temem compromissos, se sentem modernos e poderosos frente à promiscuidade. Relacionamento é uma palavra ultrapassada e ao mesmo tempo desconhecida para quem teme envolvimento. Descartam pessoas como se estivessem descartando uma lata vazia de cerveja. Depois de usada, que seja catada por quem gosta de produto reciclável. Que venha mais uma lata nova e cheia de cerveja. Vão se enchendo de parceiros para não ter que enfrentar o próprio vazio. Será que são modernos? As doenças, fruto deste comportamento promíscuo, aumentam, dia após dia, e o sentimento de solidão se esconde por detrás da fachada do liberalismo que exibe sempre um falso sorriso de satisfação. Doença e solidão é sinal de progresso e poder? Será que se trata mesmo de evolução ou de uma regressão aos tempos mais remotos de nossa história? A primeira coisa que a doença nos mostra é a nossa fragilidade e a primeira que nos rouba é o nosso poder.  A capacidade de se relacionar foi um dos principais avanços da humanidade. A aquisição desta capacidade permitiu o desenvolvimento de funções importantes que dá ao homem o atributo de ser humano, dentre elas, os sentimentos e a razão. Na esfera dos sentimentos estamos, gradativamente, desenvolvendo a nossa habilidade para amar, ser solidário, paciente, enfim lutamos para vencer toda a negatividade que nos aproxima de um mundo governado pelos impulsos. Na esfera da razão, estamos aprendendo a ser mais éticos, inteligentes, disciplinados, enfim, a pensar com mais sabedoria.

     Nem todos conseguem evoluir, pois são governados por impulsos de morte que geram todos os desequilíbrios que estamos sujeitos hoje. A revolução sexual só é um passo importante no sentido de permitir uma sexualidade livre, responsável e planejada. Uma revolução sem planejamento vira bagunça. No meio da algazarra, a desorganização prolifera e gera o caos. Em meio ao caos, a libertinagem encontrou terreno fértil para se fantasiar de liberdade e iludir os confusos, os perdidos e os imaturos que transformam a vida numa brincadeira de mau gosto. Brincando de fazer sexo, crianças nascem sem serem desejadas e sem nenhuma estrutura financeira e emocional que possa permitir o desenvolvimento das mesmas. A criança é a base de nossa sociedade. Uma criança violentada gera, concomitantemente, uma sociedade violenta – nosso principal cenário hoje.

      Não se deve conter a força da sexualidade e nem mesmo vivê-la de forma desregrada. É fundamental vive-la com prazer, sem culpa e com responsabilidade. Transar não é sinal de poder; só é poderoso aquele que consegue viver a sua sexualidade de maneira saudável, sem se prejudicar e sem lesar o outro e a sociedade. A vivência de uma sexualidade prazerosa só possível se houver uma relação harmoniosa com o parceiro, com o próprio corpo e com a própria vida.

          O ser humano tem muita dificuldade de viver com moderação. Há um grupo de pessoas que querem viver "tudo" e não se dão conta de que o "tudo" não existe. Na busca deste "tudo" acabam perdendo o "essencial". Lidar com a falta e com a restrição é um grande desafio. Embora não aceitemos, somos seres de falta e ao mesmo tempo, por mais paradoxal que possa parecer, somos seres de infinita abundância. A completude que buscamos é uma mera ilusão e desejo de nosso ego. O nosso ego é como uma criança mimada; quer a realização imediata de todos os nossos desejos. Se atendemos apenas as solicitações de nosso ego, reforçamos a imaturidade desta criança impedindo-a de crescer rumo aos desígnios mais elevados de  nossa alma. Há um outro grupo de pessoas que reverenciam as restrições a todo custo. "Nada pode". Para eles, a energia sexual deve ser contida e reprimida. O moralismo, o desafeto, o puritanismo, culpas e muitos traumas sexuais se escondem por trás destas posturas. Se vivermos a nossa abundância, a busca pela completude ou pela restrição perde o sentido. Na abundância podemos viver o prazer de forma saudável e a moderação de forma tranquila  e serena sem a sensação de estarmos sendo furtados.

      Energia sexual não foi feita para ser reprimida, mas com certeza, para ser bem aproveitada como toda fonte poderosa de energia.  Desperdiça-la, pode gerar uma série de problemas.  Para quem deseja utilizar bem sua energia sexual, preste atenção no exemplo do Pássaro Vermelho e do Curió da história abaixo.


A Fruta do Prazer


     Era uma vez uma árvore carregadinha de cajus deliciosos e hospedeira de um lindo pássaro vermelho, porém, guloso, que jamais se contentava com um caju só, queria todos eles. Pulava de galho em galho bicando um por um sem, no entanto, sentir o verdadeiro sabor de cada um deles. Questionado pelo amigo Curió acerca deste comportamento estranho, respondeu:

−São todos iguais e estão aqui para me satisfazer.  

−Mas, então não seria melhor comer um só? Você estragaria menos os lindos cajus deste pé e permitiria que este alimento fosse compartilhado com outros pássaros que estão também à procura de alimento.

−Quem chega primeiro leva o melhor. Se não são bons caçadores como eu, nada posso fazer. Zombou o Pássaro Vermelho se enchendo de pomba e estufando seu peito.

−Desde quando saber caçar pressupõe acabar com tudo que se vê pela frente? O verdadeiro caçador escolhe a presa certa, aquela que vai decerto sacia-lo. Argumentou o Curió.  

−Pois eu me sacio com todas. Contraverteu o Pássaro Vermelho com ironia.

−Não parece! Questionou o Curió, balançando serenamente a cabecinha de um lado para o outro.

−Por que? Perguntou confuso o Pássaro Vermelho.

−Porque a sua fome parece não ter fim. Você parece, na verdade, um insaciável. Esclareceu o Curió com a firmeza de quem percebe claramente as coisas.

−Acho que você morre de inveja do meu poder. Zombou o Pássaro Vermelho insaciável.
−Poder? Como assim? Perguntou, confuso, o Curió sem conseguir compreende-lo.

−O poder que tenho de caçar os cajus que você não dá conta. Olhe bem para você. Ha quanto tempo está comendo este único caju. Eu já biquei dezenas deles, além das dezenas de goiabas, laranjas, pêssegos e abates que papei só neste dia. Escarneceu o Pássaro Vermelho.

−Qual deles é mais gostoso? Desafiou o amigo Curió com a intenção de conscientiza-lo.

−Como já te disse, é tudo a mesma coisa. Pintou no pedaço, ta no papo! Zombou mais um vez o Pássaro Vermelho fazendo transparecer um certo sentimento de vingança. Parecia querer agredir o mundo com esta postura usurpadora.

−Cuidado para não comer uma fruta estragada. Aliás, é só isto que você sabe fazer com cada uma delas – estraga-las. Coitadas... Se elas, pelo menos, pudessem se defender de você... Vejo que você não possui nenhuma responsabilidade ecológica. Criticou o Curió.

−Responsabilidade ecológica... Que papo mais antigo! O bom mesmo é aproveitar a vida. Completou o Pássaro Vermelho rejeitando claramente as críticas do Curió.

−E desde quando quem tem responsabilidade não aproveita a vida? Parece que seus conceitos estão meio confusos, não acha? Interpelou o Curió.

−Esse papo ta careta demais! Tô fora do pedaço! O Pássaro Vermelho foi saindo, mas antes que levantasse voo o Curió lhe alertou:.

−Dizem que tem um bicho chamado homem que está se comportando assim como você. Dizem, inclusive, que antes dele se tornar a vítima fatal do próprio comportamento inconsequente, nós seremos as primeiras vítimas.

−Então é melhor aproveitar mais ainda a vida. Finalizou com ironia o Pássaro Vermelho.

     O tempo passou e chegou um inverno diferente de todos os invernos anteriores. A escassez era grande e já não havia mais alimento para todos. Milhares de animais morriam, dia após dia, e o desespero tomava conta de todos. A fartura só existia na lembrança, principalmente, daqueles que esbanjaram sem aprender a economizar e valorizar o alimento. Debaixo de uma árvore seca, fincada sobre um solo árido e quebradiço, estava o Pássaro Vermelho, moribundo e irreconhecível, pedindo a todos pássaros que passavam uma migalha de alimento. Passando por ali, o Curió  reconheceu o amigo, mas depois de checar, minuciosamente, se era ele mesmo, se deu conta de que deveria estar enganado. Olhou para suas penas que já não eram as mesmas e para o seu olhar ofuscado, pensando:

−Não!.. Este não pode ser o pássaro vermelho... Este olhar triste e frágil não tem nada haver com aquele olhar arrogante.

Antes que partisse, ouviu uma voz trêmula e abafada suplicando:

−Não conhece mais os amigos? Por favor, me dê um minuto de atenção.

−Amigos? Eu não te conheço. Justificou o Curió.

−Será que fiquei tão irreconhecível assim? Sou o Pássaro Vermelho.

−O que aconteceu com você? Perguntou assustado o Curió.

−Tudo aquilo que você previu um dia e eu não acreditei. Estou morrendo e não consigo caçar uma única fruta para matar a minha fome. Respondeu pesarosamente e com uma verdadeira expressão de arrependimento.

−Mas, você se dizia um excelente caçador. O que fez com que você perdesse a sua habilidade para caçar as dezenas de frutas que caçava anteriormente num único dia? Indagou o Curió.  

−Descobri, tardiamente, que nunca fui um caçador. Não aprendi a procurar meu verdadeiro alimento e valoriza-lo como deveria. Fui, na verdade, um esbanjador daquilo que a natureza me doava com fartura. Será que você poderia me doar, agora, um pequeno pedaço desta fruta preciosa que voce carrega consigo. Perguntou – Hoje, ela vale tanto quanto uma mina de ouro – Lamentou o Pássaro Vermelho, expressando mais do que desejo, uma nítida necessidade de se alimentar para matar a fome que poderia matar o seu corpo.

−Esta fruta vale mais que uma mina de ouro. Vale a minha vida e pode valer a sua, caso eu faça por você aquilo que faltou você fazer por todas as frutas que desperdiçava. Corrigiu o Curió.

−Acho que desperdicei também a minha vida deixando apodrecer dentro de mim o que eu possuía de mais valioso. Emendou o Pássaro Vermelho.

−O que você possuía de mais valioso? Perguntou curioso o sábio Curió.

−A minha capacidade de relacionar com respeito com o outro e comigo mesmo. Respondeu o Pássaro Vermelho denotando profundo discernimento.

−Parece que você aprendeu muita coisa importante... Conjecturou o Curió.

−Espero que não seja tarde demais! Lastimou-se o Pássaro Vermelho.

−Nunca é tarde quando temos coragem de abrir mão de nossa vaidade e usar a nossa humildade como veículo para nos conduzir rumo ao  novo caminho que nos aguarda. Não vou lhe dar um pedaço de minha fruta, mas vou lhe dar algo mais precioso. Vou lhe ensinar a encontrar a fruta preciosa que matará a sua fome trazendo a sua vida de volta. Proferiu o Curió com sabedoria querendo oferecer o máximo de sua generosidade.  

−Eu lhe agradeço, mas estou muito fraco, não consigo mais voar. Justificou o Pássaro Vermelho com pesar.

−Nem sempre a melhor fruta está no topo da árvore. Algumas estão no chão; são arrancadas pelo vento para que possam nutrir aqueles que não podem voar alto. No topo das árvores existem também frutas podres. Você sabe bem disto! Esclareceu o Curió.

−Você tem razão! Eu já ajudei a estragar muitas delas. Admitiu o Pássaro Vermelho com ar de arrependimento.

−Você já se arrependeu e isto já basta! Alimentar a culpa só vai ajudar a estragar  ainda mais o resto de vida que você possui. Vá, levante-se. Viva! Vá à busca de sua fruta. Tenho que ir, pois tenho uma linda família para alimentar. Incentivou o Curió.

−Família? Deve ser bom ter uma família. Refletiu o Pássaro Vermelho demonstrando total falta de conhecimento acerca desta realidade que lhe faltava.  

−Você pode ter uma também. Vá à luta e lembre-se. “A família é como uma fruta. Só será saudável se a semente escolhida for sadia, e por último, se tivermos com ela uma relação saudável. Família é uma só, não dá para ficar descartando como se fosse um lixo. É necessário recicla-la a cada dia com bons exemplos e sentimentos saudáveis”. Alertou o Curió.

−Vá! Não se atrase por minha causa. Obrigado pelo alimento que me deste hoje. Esta conversa me nutriu com o desejo de seguir em frente. O velho Pássaro Vermelho precisava mesmo morrer. Agora poderei renascer e sentir, finalmente, o sabor de cada fruta que eu encontrar em meu caminho. Eu nunca soube distinguir o sabor de uma fruta. Maçãs, laranjas, cajus, ameixas, enfim, todas elas possuíam para mim o mesmo sabor. Perdido no desejo de nada perder, eu perdi a capacidade de apurar meu paladar e sentir o verdadeiro sabor da vida e da fruta do prazer. Mas, não se preocupe, eu aceito o desafio de encontrar o que jamais valorizei no passado. Vou usar, sabiamente, o restinho de energia que me resta para realizar esta nova conquista. Não desperdiçarei este valioso restinho de energia.  Ainda me resta uma esperança. Só tenho a agradecer! Obrigado por tudo! Agradeceu o Pássaro Vermelho se sentindo mais forte para seguir em frente sem carregar em sua nova bagagem as véstias de vítima ou vilão. Com uma bagagem mais leve, conseguiu abrir suas asas e tocar carinhosamente nas asas do amigo lhe dando um afetuoso abraço. .

−Boa sorte! Finalizou o Curió denotando uma grande alegria frente as mudanças do Pássaro Vermelho.

     Os dois se despediram e seguiram em frente; cada qual com  a sua missão e certos de que a sorte alcança quem a busca.


ESPAÇO DE REFLEXAO


     Tem certos ingredientes que somados à nossa sexualidade, além de enriquecê-la, poderão se transformar em um fator decisivo para a nossa saúde bio-psíquica, evolução pessoal e social. Dentre eles, quais fazem parte de sua receita sexual?

(  ) Respeito

(  ) Responsabilidade

(  ) Entrega

(  ) Desejo

(  ) Prazer

(  ) Afetividade

(  )Amor

(  ) Compromisso

(  ) Criatividade

(  )Carinho

(  )Tranquilidade

(  ) Informação

(  ) Auto-conhecimento

(  ) Conhecimento do parceiro

(  )Liberdade

(  )Flexibilidade