segunda-feira, 22 de abril de 2013

O NÓ DA CULPA


ERREI
E AGORA ?
ERRASTE
E AGORA?
AGORA
NÃO HÁ MAIS O QUE FAZER
COM O ERRO QUE HABITA O PASSADO
AO AGORA
O PERDÃO IMPLORA
QUE JOGUE FORA
O QUE AO PRESENTE NÃO PERTENCE
NA LIXEIRA
DE TUDO QUE NÃO PODE SER DESFEITO
FICA O ERRO
E NA CAIXA DE PRESENTE
FICA O APRENDIZADO
DO MAL QUE NÃO SE DEVE MAIS VIVER


O NÓ DA CULPA


Das Dores tinha sempre uma dor a reclamar. Seu  corpo era uma lixeira que abrigava uma série de vivências mal elaboradas. Todos os erros,  ao invés de serem jogados na lixeira do passado, eram depositados em seu corpo. Das Dores alimentava todas as culpas dos erros que cometera vida afora e era também mestra em culpar o outro. Ela não entendia porque sentia tanta dor e porque seu corpo era tão pesado. Das Dores não digeria suas experiências de vida. Pelo contrário, gostava de rumina-las e amarga-las.  Adorava apontar seu dedo indicador num gesto de julgamento como se fosse um juiz no tribunal da vida. A pena que escolhia para si mesma e para os pobres pecadores ao seu redor era sempre muito alta. Aprisionava no cárcere de seu mundo doente todos que erravam e, sobretudo, ela mesma. Parecia querer fazer o papel daquele Deus julgador e punitivo que ela tanto amava. Aliás, era muito religiosa, embora não aprendera a valiosa lição do perdão deixada pelo mestre Jesus Cristo.
Seu processo terapêutico não fluía, pois usava a terapia apenas como uma lata para depositar o volume de lixo que seu corpo não suportava mais. O trabalho de reciclagem deste lixo era sempre rejeitado por Das Dores. Só desejava chorar, apontar erros e cutucar feridas. Dizia de boca para fora que perdoava, mas logo que se descuidava, lá estava Das Dores reclamando e clamando as dores que causou ao mundo e o mundo a si mesma.
Das Dores adorava a terapia, embora não conseguisse fazer tão bom proveito da mesma. Era obcecada por punição. Sentia certo prazer mórbido por chicotear a sua alma e o seu corpo com as dores que colecionava.  Colecionava dores e gostava de dividir sua coleção com as pessoas ao seu redor. Foi ficando muito sozinha, pois não há pessoa saudável que queira compartilhar a energia que oferecia com tanta fartura – sofrimento.
Das Dores tinha uma autoestima muito baixa. Tornar-se mártir era uma forma de sentir-se mais valorizada. Falar de seu sofrimento era uma forma de monopolizar a atenção das pessoas. Alimentar a culpa era uma ótima estratégia para manter a chama do seu sofrimento sempre acesa. Pode parecer loucura, mas é esta a chama que ainda hoje, depois de muitos anos, move Das Dores. Ela não aceita nenhuma técnica ou recurso que possa liberta-la. A chama do amor, da paz e felicidade não aquecem e nem iluminam seu cárcere emocional.
Há quem se sustente e sinta iluminada e aquecida apenas pelas trevas. Só é possível salvar quem estende a mão em busca do verdadeiro socorro. Das Dores até estendia a sua mão, no entanto, para puxar para baixo e para o seu mundo sombrio mais uma vítima de si mesma.

A culpa é uma forma de controle e manipulação; um desperdício do momento presente para manter vívido um passado que gera dor e sofrimento. Por detrás da culpa há sempre uma personalidade imatura e infantil que busca uma punição inconsciente para um erro cometido e não processado pelos níveis mais evoluídos do nosso ser. O arrependimento é, por outro lado, o processamento saudável de um erro. A culpa não abre espaços para nenhum padrão de elaboração mental e emocional de uma vivência que aponte nossos erros e imperfeições. O arrependido cresce e amadurece. O culpado se mantem preso no cárcere de um sofrimento sem fim, exigindo uma perfeição que não pode ser alcançada e apegado, de forma exagerada, a um padrão estabelecido que nega as nossas verdades e vicissitudes. O arrependido compreende; o culpado ou culposo acusa e exige punição. O arrependido é humilde, enxerga seu erro e procura transcende-lo através de mudanças em seu comportamento presente. O viciado em culpa disfarça seu orgulho, que lhe impede enxergar o erro como uma possibilidade de crescimento, com o traje de uma culpa que busca, na verdade, segurança, aprovação e piedade. O arrependido não quer a piedade de ninguém, por isso não alimenta o conflito entre o certo e o errado , não impõe nenhuma moralidade ao seu ato e nem mesmo exige uma imagem idealizada de si mesmo ou dos outros. Deseja, sobretudo, viver a prática do perdão e toma consciência de seu erro como uma forma de recuperar seu poder e responsabilidade para agir com integridade. Sabe reconsiderar seu sistema de valores e está atento não só à relatividade da moral, do certo e do errado, como também dos disfarçados produtores de culpa presentes em nossa sociedade. Se permite ser livre para recomeçar quantas vezes for necessário; quer ser feliz e transformar a vida numa experiência de crescimento e não numa vivência onde não haja espaço para o erro. Quer ser visto como uma pessoa madura e forte, jamais como um ser digno de piedade. Sabe que todo seu processo de amadurecimento depende de uma transformação que ocorre à  partir do erro, jamais da punição e tortura. Não usa o passado como um espaço para se proteger de experiências que não deseja encarar ou viver no presente. Tem uma boa autoestima e consegue se aceitar mesmo não sendo perfeito e não recebendo a aprovação de outras pessoas. Não tem a pretensão de ser um exemplo ou um modelo padrão. Para isto, evita também produzir culpa no outro. Bem diferente de Das Dores, o arrependido além de se comprometer em avaliar as consequências reais de seu comportamento, quer expurgar as suas dores e cultivar o seu bem estar e o seu desenvolvimento. Age como o pescador da história abaixo e não se permite ser puxado por nenhuma bruxa travestida de sereia para o fundo sombrio do lago de suas vivências negativas e das vivências mórbidas de outro ser, sejam estas vivências conscientes ou inconscientes. Para isto, compromete-se sempre com seu processo de iluminação, ou seja, levar luz ao porão de seu mundo interior e exterior.
Não precisamos, necessariamente, de um juiz severo no mundo externo para apontar nossos erros e sentenciar a nossa pena. Possuímos estruturas internas que sabem fazer isto muito bem. O nosso superego é um juiz que fere o nosso coração com uma lei que preconiza a culpa e a punição. Por outro lado, o nosso Eu Superior sabe lançar um olhar maduro sobre as nossas arestas e lapida-las com a ferramenta do perdão.
Para quem deseja se proteger de um superego cruel ou dos perigosos produtores de culpa de nossa sociedade, leia a história abaixo da Sereia Cruel. Pescar a bruxa antes que ela lhe lance nas profundezas de uma culpa sem fim e manter vivo e alerta o pescador que navega em nosso Eu Superior será sempre o nosso grande desafio.

A SEREIA CRUEL

Era uma vez uma linda sereia que vivia aparentemente infeliz em seu mundo.  Ela sempre dava um jeitinho de aparecer para alguém e contar a sua triste história. Dizia que sonhava sair das águas sombrias do lago em que vivia e tornar-se uma linda mulher de verdade, capaz de caminhar com suas próprias pernas e tecer o seu próprio destino. No entanto, estava encarcerada em sua cauda de peixe por obra do um feitiço de uma bruxa má e destinada a viver para sempre nas águas daquele lago repleto de mistérios.
Só uma coisa poderia salva-la de tamanha maldição. A Sereia dizia que se alguém se interessasse pela sua história, o feitiço se quebraria e de sua cauda nasceria as tão desejadas pernas para que pudesse finalmente caminhar terra firme e viver feliz como qualquer ser humano.
Tomando sol sobre as pedras à margem do lago, a Sereia foi abordada por um pescador:
- Uma sereia! Estou enxergando direito? Indagou o pescador passando as mãos sobre os olhos para certificar-se se estava acordado ou se aquela visão não passara de um sonho.
- Enxergando muito bem! Sou a Sereia do Lago. Na verdade, tornei-me a sereia deste lago por conta do feitiço de uma bruxa muito má.
- Como assim? Não estou entendendo.
- Sou um ser assim como você. Vivia no seu mundo até que a bruxa me condenou a viver neste lago sombrio. Hoje sou infeliz por culpa da maldade da bruxa má.
- Mas, porque ela fez isto? Perguntou o pescador com ares de indignação. 
- Por pura maldade. Respondeu a Sereia fazendo um beicinho como se desejasse chorar.
- Mas, todo feitiço pode ser quebrado. Você sabe como quebrar o seu? Perguntou o pescador querendo encontrar uma saída para o infortúnio da Sereia.
-O meu feitiço dificilmente poderá ser quebrado. Alguém deverá se interessar pela minha história para que a minha cauda se transforme em pernas novamente. Respondeu a Sereia exalando uma questionável desilusão.
- Qualquer pessoa se interessaria por você. És tão bela! Exclamou o pescador querendo anima-la.
- É aí que reside toda dificuldade, pois todos se interessam por mim quando deveriam se interessar pela minha história. Contrapôs a Sereia num tom agressivo,  lançando sobre o pescador um olhar censurador.
- Pois eu me interesso pela sua história. Pode contar-me; sou todo ouvidos. Ofertou-se o pescador lançando sobre a Sereia um olhar de compaixão.
A Sereia começou a contar sua história dramatizando a posição de vítima que os mestres em culpar os outros sabem fazer tão bem. Todas as vezes que contava sua história, grande parte das pessoas que ouviam, tomadas primeiro pela compaixão e logo em seguida pela culpa, eram arremessados para sempre para dentro do lago sombrio. O pescador seria, com certeza, a sua próxima vítima. Com o mórbido desejo de sensibiliza-lo com sentimentos negativos atirou a sua primeira flecha emocional:
- A culpa desta cauda que me imobiliza é de uma bruxa má que sempre invejou a minha beleza. Resolveu roubar a minha beleza, por não dar conta de sua feiura. Me furtou as pernas e me deu esta cauda condenando-me a morar neste lago. Disse-me que a culpa de meu infortúnio era a maldade de todos vocês, pois sempre se interessariam pela minha beleza e nunca por mim de verdade. Infelizmente, tenho que admitir que vocês só gostam da minha casca e não se interessam pelo meu conteúdo. Se algum de vocês se interessassem por mim, eu não estaria mais aqui enclausurada nesta cauda. Aposto que você é também como todos os outros. Só quer aproveitar de minha beleza. Pisa no meu coração sem sentir a minha dor. Seu insensível! A minha tristeza não lhe traz nenhum arrependimento?
O pescador, que era muito esperto, interrompeu a Sereia tentando alerta-la para seu discurso recheado de culpa:
- Epa! Pode parar por aí! Como você pode dizer que sou insensível e que me interesso somente pela sua beleza se nem bem me conhece? E, como posso me interessar pelo seu conteúdo se não conheço nada sobre você? Ao contrário de tristeza, o que vejo em você é arrogância e desejo de torturar-me. Indagou o pescador.
- Está vendo como você é frio! Se tivesse um pouco de compaixão não diria uma coisa destas. Censurou a Sereia com uma voz estridente.
- E o que tem de errado com o que acabei de falar? Questionou o pescador olhando no fundo dos olhos da Sereia, agora com um tom de voz e com uma expressão firme e inabalável.
- Tem muita coisa errada com você. Por causa destas coisas erradas que povoam o seu ser, belas moças acabam ficando assim como eu. Por pior que a bruxa seja, neste ponto ela tinha razão. Vocês são os vilões de nossa beleza. Berrou a Sereia batendo com sua calda no chão, mostrando sua força e sua oposição.
- Todo vilão precisa de uma vítima e toda vítima de um vilão. Parece que você deseja justamente isto.  Quer me fazer sentir culpado para manipular-me? Lamento lhe informar que comigo este joguinho não funciona. Felizmente, em poucos minutos pude lhe conhecer profundamente. Devolvo a você o lixo que tentou jogar sobre mim.  Não há como me interessar pela sua história e nem tampouco por você. Agora, consigo ver nitidamente a sua feiura. Acho que a bruxa má mora dentro de você mesma. Fique com a sua sujeira, pois ela só pertence a você mesma. Sentenciou o pescador tentando se proteger das malícias da Sereia.
A Sereia ficou furiosa. Pela primeira vez foi desmascarada. De seu rosto lindo surgiu a face de uma bruxa horrível. Quando viu a sua imagem terrível refletida nas águas daquele lago sombrio, deu um estridente grito:
- Seu malvado! Você vai me pagar caro por isto.
A Sereia preparou o seu bote tentando dar, com a sua enorme cauda, uma lambada nas pernas do pescador para lança-lo no fundo do lago, assim como fizera com tantas outras pessoas que caiam em sua armadilha emocional. Mas, o pescador era safo e antes que tomasse uma rasteira da bruxa lançou sobre ela uma rede de pescaria. Presa na rede a bruxa rosnava de ódio.
- Seu malvado! Seu Malvado!
O pescador puxou a bruxa para fora do lago sombrio e, tão logo em terra firme, sua cauda se transformou em pernas. Presa na rede a bruxa esbravejava:
- Me tire daqui! Me tire daqui, seu malvado.
O pescador colocou ao lado da bruxa aprisionada duas placas; uma de advertência e outra de orientação. Na placa de advertência estava escrito com letras garrafais: “Cuidado com a culpa! Só ela solta a bruxa.” E, na placa de orientação estava escrito: “Transmute a culpa para se libertar.”
Como ninguém queria ver a bruxa solta, o sinal de alerta se manteve aceso para proteger todos aqueles que não desejavam cair no jogo da culpa. Para a bruxa e para todos que traziam uma bruxa presa dentro de si, bastava aceitar o desafio da transmutação. Dotados desta consciência, ser livre das redes da culpa passou a ser, dali para frente, uma opção. Libertar daquelas redes não traria nem a bruxa e nem mesmo a sereia de volta; traria um ser, humano como qualquer outro,  capaz de caminhar pela vida com as suas próprias pernas aceitando cada desafio desta caminhada.  
Depois que a bruxa foi presa, do fundo do lago sombrio emergiram dezenas de pessoas que foram enfeitiçados por ela. Aprisionados por algum erro do passado, se tornaram uma presa fácil da culpa que a bruxa soube, no passado, manipular com maestria. Agora, com a intervenção do pescador, estavam livres para transitar em seu vasto mundo dos sentimentos e emoções. Quanto ao pescador, mais do que pescar falsas sereias, sabia como ninguém transmutar seus erros e libertar a sua alma dos desencantos das bruxas que povoam os lagos sombrios da vida.

ESPAÇOS DE REFLEXÃO

Procure analisar se você você é capaz de transmutar a sua culpa e transforma-la em arrependimento. Para isto, veja se é capaz de adotar os comportamentos abaixo todas as vezes que comete um erro:
(  ) Sou capaz de encarar o passado como algo que não pode ser mudado e  aprender com meus erros
(   ) Me aceito, mesmo não recebendo a aprovação dos outros
(   ) Sou uma pessoa flexível e capaz de reconsiderar meu sistema de valores
(   ) Abro mão de idealizações e perfeições
(   ) Abro mão  de querer tudo controlar
(   ) Abro mão de manipulações
(   ) Tenho energia para recomeçar
(   ) Me permito ser livre
(   ) Estou atento aos produtores de culpa ao meu redor
(   ) Desejo ser uma pessoa forte e madura e não um ser digno de piedade
(   ) Estou atento à relatividade da moral, do certo e do errado
(   ) Me permito errar
(   ) Me permito transformar
(   ) Uso meu erro como uma ferramenta de transformação
(  ) Diante de meus vacilos, comprometo-me a recuperar a minha responsabilidade e poder para agir, da próxima vez, com mais maturidade e integridade
(   ) Não desejo ser um padrão ou um exemplo de perfeição para o outro
(   ) Não produzo culpa no outro
( ) Procuro sempre avaliar as consequenciais de meu comportamento
(   ) Vivo o meu presente
(  ) Não uso o passado como uma armadura capaz de me proteger das experiências que preciso vivenciar no aqui agora
(   ) Sei perdoar

DESAFIO

"PERDOE". 
Pode não ser fácil, mas é uma salvação e uma medicação valiosa. Se você não souber ou não conseguir perdoar os outros e a si mesmo, busque ajuda ou clique em PERDÃODIABÓLICO VENENO, QUANDO A CIGARRA EMUDECEU e em  PERDOAR PARA MANTER-SE SAUDÁVEL para fazer algumas reflexões neste sentido.



quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013



DIZEM QUE O MEDO PARALISA
A MIM, ELE MOVE
MOVE MINHAS INCERTEZAS
TORNANDO CERTO
O ERRO ASSUSTADOR
QUE TEMIDO
FAZ-ME  SENTIR PERSEGUIDA
INCITANDO-ME A FUGIR SEM RUMO
NA DIREÇÃO DO FRACASSO,
TORNANDO DISTANTE O SUCESSO
QUE TEMO PERDER
SEM TÊ-LO AINDA CONQUISTADO.

ESSE MEDO QUE CARREGO
E QUE CUIDO TÃO BEM
E QUE TÃO BEM CUIDA DE MIM
DESACELERA MEU CORAÇÃO
QUE ACELERADO PEDE CORAGEM.
CORAGEM INCÔMODA
QUE MUITO ME PEDE
ENQUANTO O MEDO SE CALA
ECOANDO UM SILÊNCIO
QUE SEPULTA MINHA LUZ.
NESTA ESCURIDÃO
EU DURMO.

DURMO EMBALADA PELO MEDO
SONO SEM SONHOS
DESPERTAR É PERIGOSO
 O ACIONAMENTO AUTOMÁTICO
DE UM ATO CORAJOSO.
ESTA TEMEROSA CORAGEM
APIMENTADA DEMAIS
 PARA O MEU FRÁGIL PALADAR
QUEIMA E DERRETE
O QUE EU INSISTO
MANTER CONGELADO.

NO RECANTO POLAR DE MEU SER
O MEDO VIVE
A CORAGEM SOBREVIVE.
MINHA ALMA CONGELADA
AGUARDA O SOL
RAIOS DE LUZ
QUE DERRETAM
O QUE É DURO COMBATER.
DERRRETIDA
A GELEIRA DE MEU SER
 HÁ DE TRANSFORMAR
FLUIR.


O NÓ DO MEDO


Valentina, de valente só tinha o nome. Nasceu temendo viver a valentia que seus pais prematuramente lhe roubaram na infância. Desde bebê demonstrava uma insegurança que os pais alimentavam com o perigoso suporte da superproteção. Seu primeiro medo, como o de toda criança, de ficar distante da mãe, era nutrido com a presença marcante da mesma 24 horas por dia. Depois veio o medo do escuro e de dormir sozinha. Para resolver o problema, os pais trataram de colocar Valentina para dormir no aconchegante ninho dos dois. O centro da cama dos pais foi ocupado por Valentina durante muitos anos. Mas, Valentina cresceu e já não cabia mais ali. No entanto, havia espaços suficientes no quartos dos pais para mais um colchão ao lado da cama dos mesmos.
 Chegando a hora de ir para a escola, Valentina resistiu mais uma vez, chorando  meses e meses até, com muito custo e mediante a presença constante da mãe a seu lado na sala de aula, se familiarizar com a professora e com os colegas que deveriam mima-la e agrada-la de todas as formas.
Na adolescência, a presença marcante de um dos genitores em todas as festinhas chegava a incomodar o grupo de amigos. O primeiro namorado tornou-se também o único e a sua preciosa bengala para amparar seus temidos momentos de solidão. Nunca deu conta de se bancar sozinha. O outro,  seja namorado, pais ou amigos deveriam sempre estar presentes para lhe dar suporte emocional. A falta, por menor que fosse, nunca foi suportada e enfrentada. Nunca pegou um ônibus, metrô ou taxi sozinha. Sempre teve um acompanhante para leva-la e traze-la dos lugares frequentados. Nunca fez escolhas que fossem realmente suas. Suas escolhas sempre refletia a luz do desejo de outra pessoa, seja dos pais e, mais tarde, do marido, seu primeiro e único namorado.
Mediante a mínima possibilidade de estar sozinha ou da necessidade de ter que resolver algo sem a presença de alguém a seu lado, dava os seus pitis, exatamente como aquela criança do passado que infelizmente não cresceu dentro de ti.
Com o tempo, seus medos e mimos foram se transformando em pânico e num egocentrismo sem fim. Cultivava sempre uma doença para continuar atraindo a atenção de todos. Se não pudesse ser dos familiares e amigos, que fosse dos profissionais de saúde.
A psicoterapia em combinação com terapia medicamentosa, que geralmente proporciona ótimos resultados em crises do pânico para 90% das pessoas, não surtiu bons resultados em Valentina. Sabem por que? A criança da Valentina não desejava crescer e assumir os riscos e responsabilidades de uma vida de gente grande. Valentina preferia ser frágil a ser valente. Sua fragilidade lhe rendia a atenção viciante que recebia dos entes queridos ao seu redor.
Hoje, Valentina tem filhos, embora nunca tenha conseguido ser uma mãe de verdade. Será eternamente filha de seus filhos. Do trono de filha ela não abriu mão para conquistar o trono de mulher, esposa e mãe.


O medo é uma reação normal e necessária para preservar a nossa integridade, no entanto, torna-se patológico quando move apenas emoções e sentimentos negativos paralisando o nosso ser e o nosso desenvolvimento. Uma pessoa corajosa não é uma pessoa sem medo. A coragem precisa do medo para existir. Não precisamos da coragem quando não existe o medo nos espreitando. Uma pessoa de coragem é uma pessoa que enfrenta seus medos com sabedoria e estratégia. Existem também os inconsequentes que carecem de medo não por serem dotados de coragem, mas por não possuírem a sabedoria necessária para medir a consequência de seus atos.
O medo saudável existe para nos preservar, jamais para nos paralisar e adoecer. Podemos, de certa forma, dizer que a prudência é uma modalidade de medo saudável. A reação de medo saudável existe para nos proteger. O nosso corpo é inteligente e sabe o que fazer numa situação de perigo; sabe, sobretudo, reagir de forma muito rápida, em frações de segundos, emitindo uma série de sintomas e liberação de substâncias que nos prepararão para uma reação rápida e precisa indispensáveis à nossa proteção. Existe em nosso cérebro estruturas responsáveis pelo elaborado mecanismo de desencadeamento da resposta do medo. Algumas delas, bem primitivas, como a amígdala  tem um pronunciado papel na reação do medo cujo objetivo principal é a nossa preservação. No passado, o homem se deparava com perigos reais e a função destas estruturas era protegê-lo e prepara-lo para o ataque ou para a fuga. Hoje, além dos perigos reais, muitos criam em sua mente perigos imaginários. Como o cérebro não consegue ainda identificar o que é real e o que é imaginário (fantasia), reage da mesma forma nos presenteando com a desconfortáveis reações que o medo nos oferta. 
Apesar do medo nos proteger, a percepção do risco não segue uma lógica que leve em conta os fatos ou a probabilidade de ocorrência dos mesmos. A lógica do medo tem muito  mais haver com fatores emocionais, crenças, traumas, costumes, informações, confiança, educação dentre outros fatores.
Existem medos ancestrais registrados no nosso inconsciente, mais precisamente relacionados com uma estrutura cerebral chamada amígdala.  Dentre estes medos, podemos destacar o medo de escuro, de lugares fechados, de altura; todos eles necessários para preservar a espécie e protege-la. A amígdala envia os sinais para o hipotálamo que se responsabiliza por alterar o metabolismo corporal intensificando a produção de adrenalina, noradrenalina e acetilcolina. A adrenalina é uma substância que melhora o nosso condicionamento físico e intelectual, aumenta a nossa energia e ânimo, bem como a frequência cardíaca e respiratória. Assim, uma há  maior irrigação sanguínea fazendo com que o cérebro e músculos trabalhem de forma mais intensa deixando a pessoa mais ágil e alerta. O coração batendo mais rápido torna a respiração mais curta para captar mais oxigênio. O sangue se espalha mais rápido carreando os nutrientes. Há uma dilatação da pupila para receber mais luz e melhorar visão para facilitar a fuga. O cérebro recebe substâncias químicas excitatórias. Excitado fica mais alerta deixando o pensamento e os reflexos mais aguçados. Há contração das artérias para que o sangue possa se concentrar nos grupos musculares maiores. Alguns vasos se contraem para reduzir a irrigação de órgãos não vitais como pele e extremidades ( o que deixa as extremidades mais frias). O corpo começa a quebrar gorduras que são eficientes depósitos de energia, para disponibiliza-las como energia adicional, e converte as reservas de açúcar em glicose, fornecendo energia extra ao organismo, Esta energia toda é fundamental numa fuga ou combate. Ficamos mais fortes. Os músculos recebem sangue e oxigênio acima do normal e enrijecem, energizados por adrenalina e glicose; isso provoca arrepios, pois os músculos conectados a cada pêlo são tensionados, puxando os fios para cima. Desligam-se os sistemas não essenciais (ex: digestivo e imunológico) para que a energia seja reservada para as funções de emergência. Muitas pessoas com medo sentem dores na região estomacal por causa do aumento da acetilcolina. A acetilcolina é responsável pela contração muscular. A digestão é interrompida, permitindo que o corpo dedique toda energia aos músculos. A sensação de fome desaparece. O sangue deixa o intestino para se concentrar no cérebro e no coração, onde é mais necessário; por isso é comum ocorrer a diarreia.
Como você pode ver, a reação de medo é uma reação extremamente complexa e sofisticada. É saudável ter medo, desde que ele sirva para nos proteger. Existem doenças (Doença de Urbach- Wieth) que calcificam as amígdalas fazendo que com a pessoa perca estas reações e não sinta medo se expondo muito aos perigos. Todas as vezes que perdemos o controle, diante de uma situação ameaçadora, o organismo libera adrenalina. Por mais desprazerosa que sejam estas reações, elas são necessárias para nos proteger. Há no entanto, pessoas que sentem prazer em sentir medo se expondo muito ao perigo ou a situações de terror; são os viciados em adrenalina. 

 Reações de medo intensas, frequentes e descontroladas, podem desencadear  quadros graves de ansiedade e a tão falada síndrome do pânico ou transtorno de ansiedade generalizada.
Devemos aprender a não alimentar nossos medos irracionais e imaginários. Muitos pais e educadores são os grandes responsáveis pela retroalimentação deste sentimento. Quantas crianças são educadas para o pânico e não para aprenderem a se proteger. Carentes de habilidade para oferecer limites ou estratégias saudáveis de proteção, muitos pais e educadores acionam os serviços dos famosos bichos papões. Tentam conter a criança oferecendo um mundo imaginário terrível repleto de perigos. Num mundo assim, a criança desenvolve uma tremenda dificuldade para enfrentar a vida, pois esta é sempre demarcada pela ameaça à sua integridade. A vida passa a ser uma ameaça, temida e evitada, jamais um contexto saudável a ser vivido.
É muito fácil construir um ser medroso. Basta oferecer uma vida sem os alicerces básicos de segurança emocional e um mundo imaginário povoado por monstros aterrorizadores. A coragem aliada à prudência forma o alicerce de uma personalidade bem alicerçada. Ter medo não é o problema; o grande problema é ser desprovido da ação certa diante dos desafios da vida. O que mais tem é gente despreparada para desafios. Diante dos mesmos, foge, mesmo que estes não representem um perigo real à sua sobrevivência. Hoje, lutamos não só pela sobrevivência física, mas também pela sobrevivência de nosso ego, de nossa auto-estima de nossa vaidade e de nosso poder. Essa teia de sobrevivência aumentou muito e muitas vezes nos vemos presos à mesma. Traumas que coloquem em riscos estas outras estruturas de nosso ego se transformam em  sinalizadores importantes para desencadear a reação de medo. Assim, nossos medos estão ficando cada vez mais complexos. Potencializar o nosso poder real, ou seja, o poder de nosso Eu Superior é uma grande arma para lidar com estes embates atuais. Mas, não somos educados para entrar em contato com nossa consciência e estruturas energéticas mais avançadas. Somos levados a perceber cada vez mais a nossa fragilidade para que possamos nos tornar uma presa fácil de um sistema que tenta, a todo momento, corromper a nossa alma, seja ele fruto de uma estrutura cultural, social, religiosa ou familiar. É muito mais fácil manipular uma pessoa medrosa do que uma  dotada de valentia. O valente se rebela, o medroso se submete. O valente provoca revoluções e mudanças necessárias. No entanto, tememos mudanças, o novo e tudo aquilo que não estejamos familiarizados. Por isso, um dos primeiros e maiores medos que o ser humano se depara é com o medo do escuro.  No escuro mora o desconhecido. Tememos aquilo que desconhecemos fora e dentro de nós mesmos. Tememos a nossa sombra, o nosso lado obscuro. Não é à toa que costumamos dizer que certas pessoas temem a própria sombra. Na verdade, não há nada mais aterrorizador do que ela, pois é no porão de nosso inconsciente que residem os nossos mais temidos fantasmas. Somos aterrorizados muito mais por nós mesmos do que pelo outro. Tememos aquilo que desconhecemos dentro de nós mesmos.  Por isso, o auto-conhecimento se torna uma arma poderosa contra o medo, pois joga luz naquilo que insistimos manter escondido. É mais fácil ter controle sobre aquilo que a gente vê e passa a conhecer do que sobre aquilo que a gente desconhece e foge.
Queremos ter controle de tudo, principalmente das coisas sobre a quais é impossível ter controle.  Pessoas controladoras são mais suscetíveis ao medo ou ansiedade. Por trás das crises de pânico sempre se esconde uma faceta controladora de nosso ser.   Quando perdemos o controle de nosso medo, ele se torna uma fobia ou pânico. O medo passa rápido, assim que o objeto ameaçador sai da esfera de nosso foco. A fobia se mantem dentro da gente como um vigilante armado para nos defender. O pânico é o total descontrole do medo. Tomado pelo pânico perdemos o controle total sobre nós mesmos. Pode parecer estranho, mas parece que a vida sempre dá um jeitinho de presentear os controladores obsessivos com o pânico. Talvez queira ensina-los a perder o controle para finalmente conquista-lo de fato:  - “Perca o controle para aprender a lidar com a falta dele”.
Há muitos tipos de medo ou fobias. Alguns deles, dependendo da intensidade, requerem tratamento sério e especializado, pois restringem muito a vida da pessoa acometida.  Todos eles, além de ter uma vinculação com algum trauma, anunciam o desconhecido e trazem a incômoda e não desejada frustração de viver em sintonia com a falta. Aqueles que suportam melhor suas frustrações e  faltas, lidam melhor com seus temores; digamos que possuem maior capacidade de reagir com coragem. Somos seres de falta e precisamos aprender a lição que ela nos oferta. Não é uma lição fácil, porém necessária.  Quem aprende a lidar com a mesma, cresce, amadurece e conquista, ao contrário de Valentina, a condição de adulto.  Há, por outro lado, aqueles que preferem passar a vida como crianças imaturas, eternos filhos a serem protegidos , ao invés de aprender a se proteger. Precisamos aprender a lidar com as adversidades. A vida não é feita só de brisa e de sol ameno e dourado; há momentos ou períodos de tempestades, nuvens escuras e  intempéries inevitáveis.
Para quem deseja aprender a  se proteger saudavelmente e ao próximo, ao invés de superproteger e inibir o desenvolvimento e a maturidade pessoal e alheia, a história de Cabinha pode ilustrar bem esta condição.

CABINHA

Dedico esta história a todos aqueles que tomados pelo medo transformam o amor numa
prisão


Era uma vez um pé de jabuticaba bebê, daqueles bem pequeninos que nascem ao lado da jabuticabeira mãe. Ele vivia cercado de outras árvores num lindo quintal de uma bela casa. Todos os pés de Jabuticaba que ali viviam amavam o bebê jabuticaba e tratavam de protegê-lo para que pudesse se tornar, um dia, uma grande árvore, assim como a sua mãe e tantos outros nascidos naquele quintal. De tão singelo e delicado que era, todos passaram a chamá-lo de Cabinha.
Mamãe Jabuticaba, com seus galhos enormes e abertos, protegia Cabinha de todas as maneiras, com as melhores intenções possíveis. Debruçava-se sobre o mesmo protegendo-o do sol e da chuva forte. Todas as outras Jabuticabeiras tratavam de fazer o mesmo. Formavam ao redor de Cabinha uma grande alameda, como se fosse um grande escudo para protegê-lo dos fortes ventos, que, vez ou outra, passavam por ali desgalhando e derrubando algumas árvores. Com tanta proteção, a pequena jabuticabeira começou a acreditar que o sol, a chuva e o vento fossem muito perigosos. Encolhia-se de medo todas as vezes que alguns raios de sol passavam entre os galhos protetores de sua mãe. Chuva forte, ele nunca conheceu, pois a mãe cercava todo volume d’água deixando apenas que suaves gotas de água banhassem seu filhinho querido. Com a proteção das outras jabuticabeiras, só a brisa suave era capaz de alcança-lo e toca-lo. Ninguém queria que Cabinha, tão pequeno e frágil, pudesse sofrer qualquer acidente ou agressão. Com tanta proteção, todos nutriam a certeza de que aquela árvore bebê iria crescer rapidamente, forte e saudável. Mas, não foi o que aconteceu. Pelo contrário, a pequena árvore estava sempre doente, fraquinha, reclamando cansaço e falta de energia. Ninguém entendia o que estava acontecendo. Quanto mais Cabinha se enfraquecia, mais proteção recebia de todas as jabuticabeiras do quintal. Quanto mais proteção recebia, mais fraco se sentia. Instaurou-se um ciclo vicioso que o deixou tão fraco a ponto de murchar e perder suas folhinhas. O tempo foi passando e Cabinha se transformou num galhinho frágil, quase seco. Mamãe jabuticabeira chorava de tristeza ao ver o filho doente. Com tanta tristeza, foi se tornando frágil também, pois a tristeza duradoura é um sentimento ruim que rouba toda nossa energia. O mesmo aconteceu com as outras árvores ao redor; uma foi contaminando a outra com a sua tristeza até que aquele quintal outrora tão viçoso e bonito foi se transformando num lugar árido e sem vida. O verde das folhas foi se transformando num marrom opaco. Os passarinhos, as borboletas, as Joaninhas, enfim, todos os bichos que antes adoravam repousar sobre os galhos das jabuticabeiras e se nutrir com as deliciosas e docinhas jabuticabas tiveram que abandonar aquele lugar, pois não havia mais alimento e nem mesmo a protetora sombra do passado para refrescar os calorosos dias de verão. Até a família que morava na bela casa daquele quintal se mudou misteriosamente sem que ninguém soubesse para onde e porque. Todas as jabuticabeiras pensavam: Será que uma grande maldição caiu sobre todos nós?
A resposta para tanta indagação foi trazida por um anjo que se mudou para aquela casa. Você deve estar imaginando que este anjo veio do céu como tantos outros que costumamos conhecer nas mais intrigantes histórias. Engano seu! Este anjo veio da roça, de um lugar escondido no meio das matas. Ele conhecia tudo sobre árvores, borboletas, passarinhos, chuva, sol, vento, enfim, conhecia tudo que dissesse respeito à natureza. Era um anjo sábio e experiente. Com tanta sabedoria, você pode imaginar a idade dele. Talvez, aposte numa idade avançada. Mais uma vez, engano seu! Este anjo era uma criança. Isto mesmo, uma criança! Ângelo era o seu nome.
Ângelo aprendeu tudo que sabia sobre a vida com a escola natureza. E, de vida ele sabia bastante, pois a natureza de onde veio era viva, muito viva. Mudou-se com sua família para aquela casa e inicialmente achou muito estranho que um quintal tão grande pudesse ter se transformado em um espaço árido e sem vida. Antes de tirar qualquer conclusão sobre a suposta maldição que poderia ter caído sobre aquele lugar, preferiu sentar próximo de cada jabuticabeira, sentir a energia que cada uma emanava, observar profundamente a postura de todas elas e tecer uma gostosa conversa com todos os habitantes daquele quintal. Ângelo, criado na roça, era bem diferente de todas as pessoas da cidade. Tinha um comportamento que deixava muita gente intrigada – ele conversava com as árvores, com as flores, com os passarinhos e com todos os bichinhos. Muitos o consideravam um maluquinho, mas ele nem se importava. Ele compreendia a limitação e a dificuldade das pessoas para entender a linguagem da natureza. Nem todo mundo fala todas as línguas. E, a língua da natureza só pode ser falada por quem tem muita sensibilidade. Foi numa destas conversas, aliada a uma profunda observação que Ângelo descobriu a maldição que recaiu sobre o quintal. Uma velha e sábia borboleta que descansava sobre os galhos da mamãe de Cabinha comentou:
—Nunca vi uma mãe tão protetora quanto esta! Quis prender o filho num casulo... Olhe no que deu!
Mamãe jabuticabeira retrucou, já meio sem força:
—Casulo? Desde quando eu sou uma borboleta? Cabinha sempre foi livre, eu apenas o protegi com meus galhos das intempéries naturais.
Ângelo tocou graciosamente os galhinhos quase totalmente sequinhos de Cabinha, orientando-o com doçura:
—Cabinha, você precisa mudar de lugar. Você está muito agarrado à sua mãe. Olhe bem os galhos e as raízes dela circundando você. Aí, neste lugar, não há espaço para você crescer e nem para se alimentar como deve.
Mamãe árvore, irritada com Ângelo interveio:
—Como pode dizer um absurdo deste! Sempre protegi meu filhinho de todos os perigos e agora recebo uma acusação destas. Ele sempre foi frágil. Nunca se deu bem com o calor do sol, com a chuva forte e, com certeza, penderia frente um vento forte. Proteção é sinal de amor. Eu amo Cabinha mais do que tudo!
Ângelo abraçou os galhos de mamãe jabuticabeira, deu um beijo carinhoso em seu tronco procurando se explicar:
—Você está entendendo mal o que eu quis dizer. Sei que ama Cabinha e que sempre desejou protegê-lo. No entanto, ao invés de protegê-lo, você o superprotegeu. Como bem disse, proteção é sinal de amor; no entanto, superproteção é expressão de nosso medo. O seu medo adoeceu Cabinha e o impediu de crescer. Ele parece temer tudo aquilo que vai nutri-lo. Querendo protegê-lo, você o privou de experiências fundamentais ao seu desenvolvimento. Ao invés de ensiná-lo a lidar com os perigos e intempéries da vida, você se tornou um casulo que serviu apenas para tirar a sua resistência. Aliás, parece que todas as jabuticabeiras aqui fizeram o mesmo. Viveram em função de protegê-lo e esqueceram de ensina-lo o mais importante.
—O que é o mais importante? Perguntou a mãe curiosa.
—Viver é o mais importante!
Todas as árvores se curvaram perplexas, até que uma delas tomou coragem e perguntou:
—Mas, o que fizemos até agora senão viver?
—Vocês viveram apenas os seus medos e expectativas. Sobreviveram bem e viveram muito mal.
—Você teria como me ensinar a viver? Perguntou Cabinha se esverdeando de esperança.
—Eu teria todo prazer em fazer isto por você. Mas, algumas mudanças importantes deverão acontecer aqui para que não só você, mas todas as jabuticabeiras possam se renovar e viver plenamente.
—Estou de acordo com qualquer coisa que possa me libertar deste casulo que me adoeceu.
—Então, prepare-se ! Pode não ser fácil. No entanto, nada é mais difícil do que ser uma árvore doente. Advertiu, Ângelo.
—Estou pronto! Pode começar! Ordenou Cabinha firmando seu tronco ainda frágil, sem saber ao certo o que lhe aconteceria. Sabia, apenas, que nada poderia ser pior do que a vida que estava levando. Não estava feliz de viver doente num quintal triste e sem vida.
—Terei que tira-lo de perto da mamãe e replantá-lo logo ali, onde o sol, a chuva e o vento poderão tocá-lo e alimentá-lo como necessita.
Antes que Cabinha se pronunciasse, mamãe Jabuticabeira, apavorada, deu um estridente grito se remexendo toda como se uma grande ventania estivesse passando por ali :
—O que! Jamais deixarei você tirar Cabinha daqui. Minhas raízes estão bem entrelaçadas nele. Não o soltarei por nada neste mundo. Saia daqui, seu intruso!
—Eu não sou um intruso! Sou o novo guardião deste quintal. Só quero ajudá-los. Eu não vou tirar Cabinha de você e nem mesmo daqui. Só vou oferecer a ele uma separação saudável baseada numa distância mínima indispensável à vida de qualquer ser vivo. Justificou Ângelo com serenidade querendo apaziguar e conter a postura bélica manifestada pela mãe Jabuticabeira
—Que distância que nada! Se eu pudesse, eu plantava Cabinha em mim para protegê-lo ainda mais. Retrucou a mãe.
—Neste caso ele seria mais um galho seu, ou seja, um prolongamento de si mesma. Não teria vida própria. O que eu quero dar a Cabinha é vida própria. Ele merece, deseja e me pede isto. Mantê-lo atrelado a você não é um ato de amor, mas, um legítimo ato de egoísmo.
As outras árvores ouviam atentamente aquela conversa, até que a mais velha delas interveio:
—Talvez, ele tenha razão. Acho que sufocamos Cabinha com as melhores intenções. Agora que sabemos onde erramos, não faz sentido permanecermos no erro.
—Você fala assim, porque ele não é seu filho. Queria ver se estivesse na minha casca... Dificilmente continuaria com este mesmo discurso.
—Já vivi esta situação muitas vezes. Sou a mais velha daqui. Todas vocês são minhas descendentes. Tenho filhos, netos e bisnetos ao meu redor. Vocês cresceram saudáveis por eu ter permitido a vocês viverem a vida. Com esta educação moderna de hoje, as coisas parecem ter mudado para pior. Ao invés de oferecer a vida, os pais oferecem uma redoma. Antigamente, as coisas não eram assim. Como bem disse Ângelo, a proteção virou uma prisão. Aprisionado, ninguém se desenvolve. O excesso de proteção foi a maldição que caiu sobre todos nós.
—Abaixo a superproteção! Abaixo a superproteção! Protestaram enfaticamente todas as árvores do quintal.
No lugar da tristeza que adoeceu a todos foi brotando um certo clima de revolta. Cabinha, sentindo-se responsável pela confusão, começou a chorar. Aos soluços suplicou a Ângelo que fizesse o que havia sugerido.
—Me tire daqui! Me dê a distância necessária para que eu aprenda a viver. Preciso aprender a me virar sozinho.
—De jeito nenhum! Eu não vou permitir! Sempre busquei com as minhas raízes, no solo mais profundo, o alimento que te nutriu até hoje. Você não teria como fazer isto sozinho. As suas raízes são pequenas e frágeis. Se as outras árvores não desejam mais colaborar, eu hei de dar conta do recado sozinha. Sempre te protegi com minha frondosa copa. O seu corpo não aguentaria o calor do sol e a força da chuva e do vento. O seu lugar é aqui, do meu lado. Daqui você não sai! Pronunciou a mãe jabuticabeira com um tom arrogante e dominador, se sacudindo toda e espalhando algumas folhas secas sobre o chão como se estivesse querendo mostrar a sua força.
—Eu não sou mais nenhuma criança, apesar de me tratar como tal. O tempo passou. Apesar de não ter conseguido me desenvolver fisicamente, eu amadureci. O seu amor possessivo não quer me deixar crescer. Se não quiser me libertar, eu mesmo me libertarei de você. Te amo muito, mas não deixarei mais que este amor me adoeça. Retrucou Cabinha, enfrentando a mãe.
—Que ingratidão! Doei a minha vida a você e é isso que recebo em troca? Vitimou-se a jabuticabeira mãe
—É justamente isto que não quero. Não quero que vivam por mim. Quero que vivam por vocês mesmos e por todos os seres que residem neste quintal. Mãos à obra , Ângelo! Ordenou Cabinha expressando pela primeira vez uma autoridade adulta.
Ângelo, com muito cuidado e carinho, começou a cavar a terra em volta de Cabinha para retirá-lo sem traumas e ferimentos. As raízes de sua mãe se entrelaçavam nas suas raízes tornando este trabalho muito difícil. Não queria ferir a mãe jabuticabeira e nem mesmo Cabinha puxando-o, bruscamente, de qualquer forma. Foi necessário desenvolver um complexo trabalho de desembolar as raízes, desatar os nós e separar as duas árvores. Depois de muita luta, conseguiu retirar Cabinha do solo e das presas de sua mãe. Dona jabuticabeira chorava e de suas folhas pingavam lágrimas como se fossem gotas de orvalho. Com o coração partido, Ângelo tentou acalmá-la, mesmo sabendo que só o tempo e a experiência poderia fazer isto por ela:
—Não fique triste! Cabinha continuará pertinho de você. Só precisa de um espaço só dele para desenvolver-se. Antes ele residia no seu espaço. Agora terá o seu próprio. Não seja egoísta! Espaço é o melhor presente que pode dar a seu filho.
A jabuticabeira não queria ouvir. Chorava compulsivamente sem acreditar na possibilidade dela e do filho serem felizes separados um do outro.
Ângelo plantou Cabinha a alguns metros da mãe, num espaço bem grande onde pudesse se expandir ao máximo. Ela poderia ver o filho quando quisesse, só não poderia mais atrapalhar o seu crescimento. A terra que o acolheu ofereceu as boas vindas prometendo fertilidade. Replantado em território próprio, Cabinha sentiu uma sensação que jamais sentira antes – liberdade. Sentiu, também, medo, ansiedade e insegurança - sentimentos estes, comuns no exercício inicial da liberdade. Mas, enfrentou estes sentimentos com outros ainda mais poderosos. Armou-se de coragem, otimismo e determinação para enfrentar todos os desafios que apareciam, dia após dia. Aprendeu a lidar com a doçura e com a fúria do sol, da chuva e do vento. Aprendeu a buscar sozinho o seu próprio alimento. Aprendeu a se relacionar com outros seres, pois a cada dia um bichinho diferente pousava em seus galhos querendo conhecê-lo melhor e iniciar uma nova amizade. Como Cabinha era muito simpático, fez centenas de amigos. Nunca estava sozinho. De onde estava, conversava com a mãe, pedia orientações quando necessário e demonstrava o prazer da nova vida. Dona Jabuticabeira, vendo toda transformação ocorrida com o filho, tornou-se capaz de enxergar o que a sua viseira do passado não permitia. Compreendeu o quanto estava errada cegada pelo medo de se separar e perder a sua jóia mais preciosa. Compreendeu que o seu amor doentio só poderia adoecer o outro e a si mesma. Amor doente de ciúme, medo e possessividade ao invés de alimentar , envenena. Cabinha foi envenenado no passado, mas agora estava curado. As outras jabuticabeiras acompanhavam a recuperação de Cabinha exalando felicidade e satisfação. A felicidade também contamina. No entanto, a contaminação da felicidade só traz saúde e bem estar. Foi assim que aquele quintal se transformou, novamente, num lugar saudável e gostoso de se viver.
Ângelo cuidava de seu quintal com amor e carinho. Sabia que seu zelo era também um grande alimento para todas as árvores, flores e bichos daquele lugar. Ângelo cresceu junto com Cabinha. Teve filhos e Cabinha também. Hoje, pode saborear as deliciosas jabuticabas que Cabinha fartamente lhe oferece todos os anos. Gosta sempre de levar crianças, adolescentes e adultos para sentar-se sobre sombra de Cabinha para ouvir uma história que termina sempre assim:
“Quem tem medo de viver, adoece, padece e não cresce

ESPAÇO DE REFLEXÃO

1)    Faça uma relação de seus medos
2)    Quais as estratégias usualmente utilizadas por voce para fugir deles?
3)    Quais estratégias você não tem coragem de adotar para enfrenta-los?
4)    Os seus medos lhe impedem de crescer em quais áreas de sua vida?
5)    O que você não quer perder com este crescimento que você evita?
6)    O que você perde deixando esta criança medrosa controlar a sua vida?

DESAFIO

Adote a estratégia que você ainda não adotou para enfrentar seu medo. Se julgar arriscada ou não tiver a segurança necessária para enfrenta-la, procure a ajuda de um profissional especializado que possa  ajuda-lo. 


terça-feira, 22 de janeiro de 2013

NÓ DA ANSIEDADE


QUERO GIRAR
SEM TEMPO PRA CHEGAR
CHEGAR A TODO TEMPO
E NO TEMPO SEM TEMPO
ME ETERNIZAR

QUERO PARTIR
SEM TER ONDE CHEGAR
SEM LUGAR
TODOS OS LUGARES
HABITAR

QUERO DESEJAR
A FALTA DE DESEJO
SEM DESEJO
DE ABUNDÂNCIA
VIVER

QUERO O PRAZER
E A FALTA DELE
E NESTA DIALÉTICA
QUE ANSEIA O GOZO
UM GOZO SEM ÂNSIA
SENTIR

QUERO MOVIMENTO
QUERO INÉRCIA
QUERO SEGUIR
QUERO FICAR
TUDO
A SEU TEMPO

QUERO SER TEMPO
MEU TEMPO
SEM TEMPO MARCADO
SEM MARCA DE TEMPO
TEMPORÁRIA E ETERNA


O NÓ DA ANSIEDADE


Venânsia” sempre viveu alguns passos à frente. Muito dinâmica e ativa, nunca conseguia estar onde estava de fato. “Presente no futuro e ausente no presente”; era este o lugar que ocupava frente ao tempo. Apesar de ser uma pessoa realizadora, nunca se sentia assim. Um profundo sentimento de falta nutria o seu ser. Suas inúmeras conquistas não eram suficientes para lhe dar preenchimento emocional. Quando realizava um sonho, sua ânsia para viver o próximo fazia com que não se permitisse usufrui-lo. Tinha sempre que correr em busca do próximo objetivo a ser conquistado. Conquistar sem usufruir só traz como saldo um enorme estresse. E, foi a sequencia de um estresse sobre o outro que foi tornando Venânsia uma pessoa extremamente estressada. Este estresse foi se tornando crônico e lhe trazendo de presente outras patologias, tais como, síndrome do pânico, depressão e uma baixa significativa em seu sistema imunológico. Tomada pelos sintomas desagradáveis destas patologias, Venânsia era obrigada a parar, frear o seu ritmo acelerado para sentir: sentir seu corpo, a vida e as pessoas.
Viciada na correria, só se permitia “sentir” se fosse tomada pela doença que nocauteava seu corpo e a sua mente. E, assim se acostumou a viver: parando apenas quando era nocauteada por sintomas que não dava conta de driblar.
Venânsia nunca quis fazer terapia. Não queria enxergar certas coisas que pudessem frear a sua ânsia de estar à frente de tudo e de todos.  Vinha sempre à procura de massagem ou outras terapias energéticas. Assim que melhorava, sumia; e assim que piorava, aparecia. Assim, continuadamente...

Quantas “Venânsias” tomadas pela ânsia de estar à frente daquilo que precisa ser vivido e experimentado encontramos pela vida à fora. Muitas "Venânsias" moram, à vezes, dentro de nós mesmos. Somos viciados naquilo que não temos, por isso, viciamos no futuro, pois é lá que reside tudo aquilo que nos falta e tudo aquilo que a nossa ilusão nos promete. De olho no futuro, perdemos nosso foco no presente para tudo aquilo que nos rodeia, para nossas conquistas e para nossas riquezas. O medo de perder também reside no futuro. Só tememos perder aquilo que não perdemos ainda. As nossas perdas reais habitam o nosso presente e diante delas nada há para ser feito a não ser enfrenta-las com sabedoria. A ansiedade nasce desta luta insana para ter o que não temos e controlar o que não temos controle.
Existe uma ansiedade normal e uma ansiedade patológica. A ansiedade normal nos alerta sobre algo importante que está por vir para que possamos nos preparar bem no presente de maneira a transformar o futuro num presente agradável. O presente não é nada mais que a chegada do futuro. Uma ansiedade saudável nos ajuda a planejar, a trabalhar de forma preventiva e enfrentar os inúmeros desafios da vida. Se estivermos com um nível de ansiedade muito baixo, por demais relaxado, corremos o risco de deixar a vida correr à revelia.   A ansiedade patológica detona na gente o desejo obsessivo de presentificar aqui e agora um futuro que não pode ainda ser vivido. Nos torna cegos para tudo que está ao nosso redor e absorto numa avalanche de pensamentos desordenados. É como se a equação matemática da mente fosse: “Se eu penso, eu controlo, eu conquisto”. E não: “Viver o que eu conquisto”. Assim vão nascendo as nossas obsessões. Uma mente ansiosa prepara o terreno para inúmeras patologias, tais como: TOC (transtorno obsessivo compulsivo), Síndrome do pânico, TAG (Transtorno de ansiedade generalizada), medos, fobias, etc. A forma e a intensidade dos sintomas vai variar conforme o transtorno.
Assim como a ansiedade pode ser deflagrada pelo nosso estilo doentio de vida, ela pode também ser fruto  de desequilíbrios hormonais, predisposições genéticas, traumas emocionais, ambiente familiar e social opressor e crenças negativas sobre si mesmo e sobre o mundo.
A vida cotidiana repleta de cobranças, perigos, competição, pressa e desafios é um grande deflagrador de ansiedade. Por isso, saber organizar a própria vida é uma dica indispensável para quem não deseja se tornar vítima de crises da mesma. No entanto, encontramos um número bem maior de pessoas habilitadas em desorganizar a própria vida do que o contrário. Muitas vezes, dificultamos o que pode ser simples e buscamos caminhos estressantes quando poderíamos caminhar com mais tranquilidade. O desejo de querer mais e mais também nos torna mais vulneráveis, pois a batalha para ter além da conta detona em nosso corpo níveis substanciais de adrenalina para enfrentarmos esta luta, muitas vezes, uma verdadeira guerra.
Para tratar a ansiedade é necessário descobrir os fatores geradores da mesma e, sempre como regra, tratar bem da própria vida. A vida foi feita para ser sentida. Na correria para alcançar o alcançável e o inalcançável passamos pela vida como um carro em alta velocidade diante da paisagem de uma estrada. Percebemos e sentimos muito pouco. Falta de percepção e sentido nos deixa limitados e consequentemente mais inseguro e ansioso. A insegurança é como se fosse uma voz interior nos dizendo que não daremos conta. Por isso, para “dar conta” é preciso ter a nossa percepção e os nossos sentidos aguçados. Munidos pela percepção profunda de nós mesmos e do mundo ao nosso redor nos sentiremos sempre mais seguros, portanto, menos ansiosos.
Passamos pelas estações ansiando a próxima. Na primavera nem sempre paramos para observar as flores. Parar para ver a beleza é perda de tempo para aqueles que só param para ver o extrato bancário ou para uma internação compulsória. Há pessoas que nunca assistiram os maiores espetáculos que a Terra nos oferece gratuitamente todos os dias: o nascer e o por do sol, o nascer da lua. Há quem raramente olhe para cima para ver a beleza de uma lua cheia. Há quem reclame do verão desejando o frio e assim que o inverno chega, reclame do mesmo ansiando pelo verão.  Para quem deseja respeitar as estações da vida, a história de Mangote pode servir de alerta. Mais vale uma fruta madura e saborosa amanhã do que uma doente e sem sabor hoje.  Saber esperar o momento certo é sempre uma boa medida para medir os níveis saudáveis de ansiedade. Por trás de uma crise de ansiedade tem quase sempre um medo de esperar e não alcançar. Antes de alcançar qualquer coisa, alcance primeiro a tranquilidade para que a ansiedade não lhe alcance. 


O PÉ DE MANGA

Era uma vez um pé de manga chamado Mangote que vivia infeliz junto com outros pés de manga, porém felizes, no quintal de uma linda fazenda. Aparentemente, parecia não existir nenhuma diferença entre os pés de manga que ali viviam, no entanto, havia uma diferença que era sentida profundamente por aquela árvore tristonha.  Ela era frondosa como todos as outras, suas folhas bem verdinhas, dava uma sombra magnífica, mas os seus frutos não eram saborosos.  Isso deixava Mangote muito triste. O maior desejo dele era descobrir a receita que pudesse deixar os seus frutos tão saborosos quanto os frutos das outras mangueiras.
Certo dia, absorto em sua melancolia, foi despertado por um João de Barro que construíra sua casa em seus galhos.
- O que aconteceu contigo, Mangote? De uns anos pra cá, você anda tão triste...
-Acho que não sirvo para nada mesmo... Lamentou Mangote.
- Como pode dizer isto! Voce é minha morada. De tão lindo e aconchegante, escolhi você como minha morada. Vivo muito feliz com toda minha família graças à sua maravilhosa hospedagem. Que motivos pode ter para reclamar da vida?
- Voce mora em mim, mas não saboreia os frutos que eu produzo todos os anos. Prefere as mangas das árvores vizinhas às minhas . Voce acha que eu nunca reparei nisto? Argumentou Mangote censurando João de Barro.
- Infelizmente, tenho que admitir que suas mangas não são tão saborosas como as outras. No entanto, acho que de nada adianta ficarmos aqui fixados em comparações. Isso só faria voce se sentir cada vez pior. Admitiu, pesarosamente, o amigo João de Barro.
- E, o que podemos fazer para mudar esta situação que me aborrece tanto? Perguntou Mangote fazendo um beicinho como se fosse uma árvore bebê.
- Eu não posso fazer nada, mas voce, com certeza tem muito que fazer. Respondeu João de Barro.
- Como assim? Eu já não faço o suficiente? Sou o pé de Manga mais eficaz e rápido deste quintal. Se voce observar bem, antes mesmo das outras mangueiras florirem, eu já estou oferecendo fartamente meus frutos.
- Pois, é justamente aí que voce precisa mudar. Querendo estar à frente de tudo, querendo andar mais rápido que o próprio tempo, voce se prejudica e não percebe. Alertou o pássaro.
- Ei! Onde é que voce está querendo chegar? Perguntou, confuso, Mangote.
-Estou querendo chegar no aqui e no agora. Respondeu com um ar de sabedoria o pássaro inquilino.
- Não estou entendo nada. Aqui... Agora... Que papo é este? Voce está ficando maluco?
-Quem está maluco já a um bom tempo é voce, embora não tenha percebido. Quer ser mais rápido que o tempo, ou seja, que o ciclo natural da vida e acha isto normal. Como pode gerar mangas normais agindo de forma antinatural? Censurou com delicadeza o amigo João de Barro.
- Que papo furado é este, Joãozinho! Retrucou Mangote, mas de forma serena e amiga.
- Furada é a situação que voce cai nela todo ano por conta desta pressa que não te leva a lugar nenhum. Pior!.. Te leva a um lugar que voce não quer estar.
- E, onde eu não quero estar? Perguntou Mangote ironicamente.
- Absorto nesta tristeza que só aumenta ano após ano. Respondeu com firmeza João de Barro.
- Voce é muito bom pra criticar. Fala o que eu faço de errado, mas não fala o que é certo fazer. Por acaso tem alguma receita especial para mim? Sabe adoçar as minhas mangas? Rebateu criticamente a Mangueira com uma aparente dose de irritação.
- Sei adoçar as suas mangas sim. Desafiou João de barro.
- Ah! Só me faltava esta! Se eu que sou uma mangueira não sei como fazer isto; voce como pássaro é que vai saber? Então, me diga: Qual a receita de mangas docinhas?
- A receita é uma só. Vale não só para adoçar suas mangas, mas para adoçar a vida de qualquer ser. Anote aí. Ingrediente –  Paciência. Modo de fazer – Viver o presente.
- O que você está querendo dizer com isto? Perguntou Mangote após o amigo despertar sua curiosidade sobre um assunto que parecera ter esquecido.
- Voce se esquece que uma obra de arte não é feita às pressas. Veja a minha casa, demorei um bom tempo para construí-la. Tudo é arte nesta vida, inclusive seus frutos. Quantas vezes você chegou a perder suas flores e, consequentemente, seus frutos por conta desta postura ansiosa. Faça o que tem de melhor no momento, mas não deixe que a ilusão de um futuro próspero roube de você o que você tem de melhor hoje; ou que a desilusão pela crença de um futuro desastroso possa roubar o que tem de bom aqui e agora. Viva cada estação no seu tempo; mais do que sito, sinta as peculiaridades de cada estação do ano e da vida.   
- Pode ser que tenha razão... – admitiu Mangote exalando constrangimento. Embora fosse ansioso, tinha uma qualidade essencial. Não era uma árvore rígida. Era flexível e humilde. Balançando seus galhos e fazendo suas folhas verdes trepidarem, continuou: – Vou tentar mudar, embora eu não saiba bem por onde começar.
- Comece freando esta pressa que só o afasta de si mesmo e de toda beleza que há em ti. Diminua esta velocidade que lhe impede enxergar, sinta mais o sabor da vida e suas mangas terão, com certeza, outro sabor. Nesta correria toda, você atropelou o melhor que existia dentro e fora de ti. Alertou João de Barro.
-Vou tentar, embora eu não saiba ficar de braços cruzados esperando o tempo passar. Ponderou a mangueira.
- Deixar a ansiedade de lado não pressupõe cruzar os braços. Pelo contrário, pressupõe fazer o que deve ser feito. A dose certa de ansiedade nos impulsiona agir e a esperar quando o momento exigir. Voce, no entanto,  fazia o que não deveria ser feito, pelo menos em determinados momentos. Afastar a má ansiedade e cultivar a boa, pressupõe também transformar o que deve e pode ser transformado e aceitar o que não deve e não pode ser.
- Aceitação... Oh palavrinha danada de ser vivida! Pensou alto a mangueira que já denotava mais satisfação.
- Aceite a ação certa que esta palavrinha se transformará numa benção. Aconselhou o amigo.
Depois deste dia, muita coisa mudou. Mangote não mudou nada em si mesmo, apenas, sua postura. Aprendeu a viver o aqui e o agora. Aprendeu a planejar o futuro, jamais, antecipa-lo e a respeitar as estações. Com esta simples mudança, sua copa ficava, a cada ano, mais florida e seus frutos cada vez mais docinhos e saudáveis. Hoje, João de Barro e sua família nem precisam mais das mangas das árvores vizinhas. Dona Joana de Barro adora fazer com as fartas e deliciosas mangas de Mangote saborosas mangadas para a passarada. A mangueira infeliz se transformou, transformando também a sua história que de triste não tem mais nada.


ESPAÇO DE REFLEXÃO


Quais das características abaixo tem haver com você? Perceba se algum sofrimento seu no presente tem haver com tais posturas. Cuide delas, pois elas  representam fortes indícios de ansiedade.

(  ) Quero maduro o que ainda está verde
(  )Quero colher antes do tempo
(  )Quero para agora o que é do amanhã
(  )Não sei esperar
(  ) Desejo apressar a vida, o mundo e as pessoas
(  )Desejo antecipar as estações da vida
(  ) Quero ter ao invés de experenciar, vivenciar
(  )Quero muito em pouco tempo
(  )Ando muito veloz e não percebo o que está à minha volta
(  )Passo pelas coisas ao invés de vive-las profundamente
(  )Desejo estar à frente. Não aceito o meu próprio lugar
(  )Sou intolerante com a ordem natural das coisas
(  )Meu mundo interior é agitado
(  )Estou sempre me adiantando
(  )Rejeito o aqui e o agora. Tenho predileção pelo futuro.

DESAFIO

 Passe um dia de sua vida totalmente absorto no aqui e no agora, ou seja, naquilo que você estiver de fato vivendo no momento. Não deixe que sua mente lhe conduza para outro lugar que não seja o aqui ou para outro tempo que não seja o agora. 

OBS> Clique no link abaixo para ter acesso a algumas dicas para superar a ansiedade
http://claudialuizacouto.blogspot.com.br/2013/01/dicas-para-superar-ansiedade.html