domingo, 25 de novembro de 2012

O NÓ DO DESCOMPROMISSO




COMPROMISSO É COISA PESADA
HOJE EM DIA, ULTRAPASSADA
NO ENTANTO...
MARCO E NÃO VOU
FICO MARCADO
FALO E NÃO CUMPRO
FICO FALADO
MELHOR SERIA
SER COMPROMISSADO?
EMBORA COMPROMISSO
 ME FAÇA SENTIR ASSIM
COMPLETAMENTE ENGESSADO
DEVO ADMITIR SEM RODEIOS
QUE LIBERDADE SEM COMPROMISSO
NÃO É LEVEZA OU SAUDÁVEL ESPERTEZA
É ALIENAÇÃO
E DECEPÇÃO, COM CERTEZA




O NÓ DO DESCOMPROMISSSO


Jovelino era um rapaz jovem com grande dificuldade de amadurecer.  Apesar dos seus 23 anos, se comportava como um adolescente. Seu pensamento estava sempre voltado para os prazeres que poderia não só usufruir da vida, mas  também usurpar da mesma. Não ajudava e não colaborava com nada em casa. Aliás, era extremamente desorganizado e  o que sabia fazer com maestria era criar bagunça para o outro arrumar. Inflava-se de pedantismo para dizer que não era empregada doméstica para fazer certos tipos de serviço ou, no mínimo, que as atividades domésticas lhe davam arrepios.  Esta justificativa infantil era o suficiente para a mãe assumir todas as responsabilidades neste setor, visto que a família não contava com os serviços de uma empregada. Mesmo assim, a mãe aceitava esta atitude infantil do filho, alimentando-o com esta dependência. Agindo assim, talvez quisesse, inconscientemente, ter para si uma eterna criança. Jovelino não se ligava  nas responsabilidades que esta nova etapa da vida exigia e possuia pais que alimentam o seu lado criança. Não se comprometia com nada que dissesse respeito a uma vida adulta. Criava profissões ilusórias em sua cabeça que pudessem garantir  o status e a continuidade dos prazeres que não aceitava  abrir mão, tais como, dinheiro acessível para suprir todos os seus desejos, por mais banais que pudessem ser. Jovelino, apesar de adulto,  dava como toda criança birrenta os seus pitis quando os pais tentavam impor  algum limite que pudesse frustra-lo. Acreditava que os pais deviam suprir todos seus caprichos. Tinha sempre uma frase pronta para justificar sua demanda de caprichos: “Eu não pedi para vir ao mundo!” Jovelino não assumia a própria vida. Achava que o fato de ter sido gerado pelos pais, o eximia da responsabilidade de comprometer-se com a sua própria vida. Todo ano tentava vestibular para  medicina ou direito. Seu intuito era ser prontamente, como num passe de mágica, um médico famoso ou um juiz poderoso. De acordo com suas fantasias, se  formaria numa escola Federal que lhe daria um maior status intelectual. No entanto, nunca se empenhou ou estudou o suficiente para passar numa escola assim. Depois de tantos fracassos sempre justificados, colocando a culpa em alguma situação ou pessoa, resolveu tentar o vestibular numa escola particular. Em nosso país há muitas escolas para Jovelinos.  Fico pensando: Quem serão os clientes destes jovens sem compromisso com a realidade? Quem serão as vítimas de suas fantasias e de seus delírios?Que Deus nos proteja  deles, ou que nos dê,  no mínimo, a intuição e discernimento para separamos  o joio do trigo.


Os Jovelinos da vida são verdadeiros sanguessugas, mas todo parasita tem um hospedeiro que se permite ser sugado. Será que voce é hospedeiro de algum Jovelino? Se for, há duas alternativas plausíveis para  sua  condição: Ou voce adora ser a vítima ou deseja fazer do Jovelino a sua vítima, tornando-o dependente de sua boa vontade para que voce possa reinar, dominar sutilmente, e ainda assim, receber o título  de pessoa bem intencionada.
Colocar limites para os Jovelinos é a única maneira de faze-los crescer e a única  maneira de protegermos a nossa vida, bem como a sociedade do estresse e da ameaça  que eles representam. Querem tudo sem dar nada em troca. A desorganização de qualquer grupo social, seja ele, o lar, a escola, ou a comunidade de uma forma geral, é decorrente da atuação de algum Jovelino e de  seus respectivos hospedeiros.
 Nada funciona harmonicamente sem a reciprocidade mútua. Jovelinos desconhecem o significado das palavras reciprocidade, solidariedade, colaboração e compromisso. São extremamente egocêntricos, portanto, incapazes de enxergar e respeitar o território do outro. Para eles, ha um único território: o próprio. Neste território, mandam e desmandam, reinam sem restrições. Para Jovelinos só existem direitos. Dever é uma palavra que existe, no entanto, só para o outro. Todas as vezes que seus desejos  são contrariados, pousam de vítimas ou assumem uma postura muito agressiva para lutar por aquilo que, ilusoriamente, acreditam ser também um direito seu, inalienável. Jovelinos  não conquistam nada. Tudo que adquirem, é,  de certa forma, uma usurpação. Se investigarmos bem, por trás de uma falsa luta para conquistar um objetivo tem sempre alguém explorado por ele, e, na  verdade,  o maior responsável por sua conquista. Se não encontrar um explorado, encontrará alguém que lhe dê tudo na bandeja, alimentando a sua aspiração de ser alguém sem nada precisar dar em troca. Este ser que banca o egocentrismo dos Jovelinos também almeja alguma realização. Encontramos aí, o tradicional desejo de pais medíocres que se sentem realizados se puderem apresentar para a sociedade os títulos de seus filhos.  Para isto, são coniventes com todo tipo de falcatrua e mediocridade que possa oferecer ao seu rebento o diploma de bem sucedido. Muitos são, também, “pais Jovelinos”,  que não  oferecem limites por não darem conta de aceita-los. Vivem através dos filhos a sua própria falta de limites. No reino do egocentrismo destes Jovelinos não há espaço para o compromisso germinar. Compromisso requer empatia, virtude desconhecida para os Jovelinos que possuem muita dificuldade de se colocar no lugar do outro, pois reconhecem apenas o lugar de seus próprios desejos.
Grande parte das coisas que não são realizadas no mundo se deve à ação descompromissada dos Jovelinos. São como gafanhotos que nunca chegam na hora de semear, mas que sabem devorar como ninguém. No entanto, para toda praga tem um remédio: Limite é uma boa medicação  para quem deseja tratar de Jovelinos ou se proteger deles.  
Muitas vezes somos Jovelinos com a nossa própria vida. Não temos compromisso com nossos objetivos, com nossos sonhos, com nossa saúde, enfim com tudo de mais sagrado que nos rodeia  e que é, de certa forma, o diamante de nossa vida. Se perdemos este diamante, perdemos o nosso brilho. Quando não temos compromisso com nós mesmos, falta também limites em alguma área de nossa vida. Por excesso de ambição, não enxergamos, muitas vezes, a nossa verdadeira missão como ser humano ou a importância de nossa saúde. Embrenhamos, sem limites, num mundo que nos distancia da nossa verdadeira essência. Enxergamos, apenas, o desejo de um ego faminto sem ouvir as necessidades de nossa alma. Criamos o caus e o desequilíbrio dentro de nós mesmos, embora, na maioria das vezes, relutemos em admitir isto.
Quantas vezes somos Jovelinos com a natureza. Aliás, a atitude “jovelínica” do homem, vem destruindo o que não tivemos trabalho de semear. Queremos devorar, desmedidamente aquilo que nos sustenta. No entanto, a mãe natureza não age como pais de Jovelinos. Ela já está colocando limites, embora, relutemos em aceitar. E, cada vez mais, os limites serão mais rígidos, pois a natureza sabe, como ninguém, educar. Quando promete, não volta atrás. E, lamentavelmente, lá na frente, não haverá retorno. Melhor seria tomarmos consciência agora, mas a população de Jovelinos tem crescido mais do que enxame de gafanhotos na lavoura do bom senso.
A palavra compromisso deriva de “com promessa.” Tem muita gente avessa a esta prática. Observo que a grande maioria avessa ao compromisso, exige esta prática do outro, menos de si mesmo. Quando fazemos um acordo ou uma promessa, estamos acordando o que ganhar e o que perder; estamos acordando direitos e deveres. Há quem queira pagar sua falta de compromisso com palavras de desculpas ou com justificativas que giram apenas em torno de suas próprias necessidades. Há quem nem mesmo isto ofereça. Consciência é o que lhes falta. São portadores de uma pseudo consciência que lhes permite enxergar apenas os seus próprios propósitos.
 Existem pessoas que sentem a palavra compromisso como uma gaiola ou como um engessamento. Temendo um aprisionamento, fogem desta prática, mas acabam se perdendo, pois não há como não se comprometer. Comprometemo-nos até mesmo com a nossa falta de compromisso. É possível evitar certos compromissos, mas não todos. O nosso corpo e a nossa alma estão repletos de exigências. Somos seres sociais e a sociedade, o trabalho e família também nos exigem compromissos. Em tudo que fazemos ou deixamos de fazer está implícito algum nível de comprometimento.
 Não há como viver isoladamente. A nossa interdependência para com tudo e todos nos exige comprometimento. Pessoas maduras são pessoas compromissadas. Pessoas imaturas vivem a seguinte operação: “Compromisso, só para o outro”. Aprisionam-se no princípio do prazer: “Prazer, só meu”.
Não é possível ter o mesmo nível de compromisso com tudo e com todos. Em momentos diferentes da vida selecionamos o que teremos mais ou menos comprometimento. O importante é cumprirmos fielmente o nível de compromisso que acordamos ter com determinadas causas do momento.
O imaturo finge ter compromisso para levar vantagem sobre a pessoa ou situação com a qual se compromete. Um ser maduro não se compromete quando não pode oferecer o que lhe é solicitado. Sabe medir bem o grau das exigências solicitadas e a sua disponibilidade para cumpri-las. Pessoas avarentas, que desejam levar vantagem em tudo, não possuem medidas. A ausência de limites é a principal medida destas pessoas.
Nas filosofias indianas existe uma palavra muito importante chamada Dharma = dever, nossa missão e nosso compromisso nesta vida. Se não cumprirmos e respeitarmos o nosso Dharma geramos desequilíbrios significativos não só na nossa vida, mas na nossa sociedade e no universo. Toda Dharma implica num Karma. No Karma prevalece a lei da ação e reação. “Toda ação tem uma reação igual e contrária”. Se não respeito meu Dharma crio um karma desfavorável. Podemos perceber claramente esta operação em nossa vida e na nossa sociedade citando uma variedade de exemplos – políticos que não cumprem seu dever gerando desequilíbrios sociais significativos; pais que não cumprem seu dever para com os filhos gerando desequilíbrios emocionais marcantes na vida dos mesmos; nosso desvelo com nosso corpo gerando sérias doenças; empregados ou patrões que não se comprometem mutuamente um com o outro acabam gerando a falência de uma empresa e por aí vai...
Todas as vezes que desejamos ser alguma coisa, precisamos primeiro analisar se além do desejo queremos nos comprometer com as tarefas que esta missão de “ser” nos solicita. A vida não se sustenta apenas com desejos, mas com ações. É através de nossas ações que cumprimos o nosso dharma e criamos um karma que promova a nossa evolução. A grande maioria das complicações que vivemos são frutos do desrespeito ao nosso dharma, ou seja, ao nosso dever e compromisso. Cumpra bem o seu dharma, o seu compromisso e verá mudanças positivas operando em sua vida. Se tua vida está muito desorganizada e desequilibrada é porque você não está cumprindo o seu dharma ou está sendo conivente ou sustentando a falta de compromisso de alguém.
Para quem deseja ter um pouquinho mais de compromisso com o mundo, com o outro e consigo próprio  e aprender a se defender de quem não possui um nível satisfatório de comprometimento, a história de Fofura, uma baleia de alma faminta, talvez possa alertar para algumas coisas importantes.
                                   
        
A Baleia de alma faminta


Na imensidão do mar vivia Fofura, uma baleia muito simpática e bonita. Todos amavam Fofura, menos ele mesmo. Por isso, vivia sempre triste achando que alguma coisa lhe faltava. Mesmo sendo agraciado pela riqueza imensurável do oceano, se portava como um ser miserável. Se achava vítima de uma vida sem graça. Sentindo-se assim, Fofura foi perdendo o encanto, ficando cada vez mais desanimado e solitário. A única coisa que Fofura  gostava de fazer é comer, comer, comer... Mesmo que não estivesse com fome, devorava, instantaneamente, qualquer alimento que cruzasse o seu caminho. Sabem por que ?Porque existia uma fome na alma de Fofura proveniente das coisas boas da vida que ele deixou de se alimentar.  Amargurado, se isolou e deixou de ser nutrido pelo carinho dos amigos e familiares. Sentia-se rejeitado e ressentido. Seu ressentimento lhe provocava imenso mal estar.  Passava a maior parte do tempo dormindo, dormindo, dormindo...Seu desânimo impedia que fosse nutrido pelo lazer e por todas as festas maravilhosas promovidas pelos seres marítimos. Fofura perdeu a vontade de participar de tudo que pudesse alimentar sua alma. Um ser com a alma alimentada não possui  o desejo de entupir o corpo com excessos capazes de adoecê-lo. Infelizmente a alma de Fofura estava desnutrida e ele foi usando seu corpo para compensar aquilo que faltava em sua vida. Ingeria tudo que pudesse fazer com que sentisse cheio, jamais satisfeito. Foi assim que foi se tornando uma baleia muito pesada. Perdeu a leveza e já não conseguia mais nadar como antes. Passava a maior parte do tempo parado, sustentando uma depressão horrível, agora, sua maior companheira. Depressão é uma doença séria que toma conta  da gente todas as vezes que a gente se esquece de tomar conta da nossa própria vida. Infelizmente, nem todo mundo sabe como tomar conta da própria vida; faz isto de uma forma muito equivocada.  Afogando cada vez mais em um mundo de trevas, Fofura perdeu a vontade de viver, pois aquela vida já não tinha mais graça. Só uma mudança bem grande poderia salvar Fofura, no entanto, ele tinha a preguiça como a sua maior aliada e só a palavra mudança já lhe dava arrepios.
Fofura só sabia reclamar e solicitar coisas que não preenchiam  a sua vida. Posava de vítima de uma vida chata e não assumia a responsabilidade pelas suas frustrações. Atribuía sempre a alguém esta responsabilidade.  
Muitos amigos se aproximavam de Fofura ofertando conselhos que poderiam ajuda-lo muito, mas ele não tinha a menor vontade de colocar em prática os conselhos que recebia. E, assim, os amigos acabaram se afastando dele, pois aquela baleia, no passado tão amigável, se tornou fria e distante. Mas, tem sempre aquele amigo que nunca desiste da gente. E, Fofura tinha um amigo deste.
Tuba era um tubarão muito determinado e resolveu ajudar o amigo. Percebeu que lá no fundo dos olhos de Fofura ainda existia uma centelha luz e um possível desejo de viver uma vida feliz. Resolveu investir nesta possibilidade. Forçando-o, pegou Fofura pelas nadadeiras e o  levou até Netuno, o grande Deus dos mares. Sabia que só a sabedoria de um Deus poderia dar um jeito em Fofura. Meio a contragosto, Fofura seguiu com Juba para a grande caverna de Netuno. Sentado num trono formado por corais da mais inusitada beleza, o grande Deus dos mares iniciou a conversa:
- Finalmente! Estou lhe esperando já faz um bom tempo, Fofura.
- Como assim? Perguntou Fofura sem compreender a razão que levava Netuno esperar por ele. Se achava uma baleia insignificante, jamais um presente dos Deuses para o universo. 
Antes que Netuno lhe desse a resposta. Tuba cochichou no seu ouvido:
- Netuno é o grande Deus e sabe de tudo que acontece com todos os seres marítimos e em cada centímetro do oceano. Com certeza, sabe muito bem o que você anda fazendo consigo mesmo.
- Como assim, pergunto eu! Continuou Netuno dando prosseguimento à indagação de Fofura – Voce acha que pode deixar de se comprometer e as coisas permanecerem em ordem?
-Comprometer? Não estou entendendo onde o senhor deseja chegar... Indagou Fofura.
- Quero chegar na palavra compromisso. Sem ele, as melhores energias do nosso universo não se sustentam. Não há como existir amor, saúde, trabalho, felicidade e evolução sem compromisso. Por acaso, você se esqueceu do significado mais profundo desta palavra?
Antes que Fofura pudesse responder, Tuba, respondeu por ele:
- Com certeza, esqueceu. Se não tivesse esquecido não estaria assim.
- Parece que você não se esqueceu; não é mesmo, Tuba? Se tivesse se esquecido do compromisso que devemos ter com tudo aquilo que nos cativa e  cativamos, você teria deixado esta amizade morrer. 
Sem palavras, Tuba moveu a cabeça afirmativamente respondendo com um afetuoso sorriso e com um olhar que denotava um profundo carinho pelo amigo. Netuno levantou-se de seu trono e como se fosse uma espada, apontou seu olhar para Fofura ,  olhar ainda mais profundo do que o de Tuba, mas que denotava uma certa firmeza e acusação. Com uma voz empostada, indagou a baleia:
- E você, o que me diz?
Fofura, sem saber o que dizer, limitou-se a baixar seu olhar num gesto de total submissão ao grande Deus. Netuno, com uma voz ainda mais firme perguntou franzindo a testa:
- Voce quer  ser um peso  ou uma promessa de felicidade para o nosso mundo?
- É claro que eu desejo ser uma promessa de felicidade. No entanto, eu não sei como fazer isto.  Respondeu Fofura rompendo com seu silêncio angustiante.
- Voce não tem que desejar nada!  Desejos você já tem demais. Tem que querer fazer efetivamente alguma coisa. Entre o desejo e a vontade existe um grande abismo. E, parece que é nele que você caiu.
- Como assim? Não entendi. O senhor pode me explicar melhor? Solicitou Fofura ao Grande Deus dos mares.
- Desejar é fácil. Quero ver você  se comprometer  a fazer aquilo que o seu desejo lhe solicita fazer.
-E, o que o meu desejo me solicita fazer? Estou tão perdido que nem sei mais o que desejo.
- Muito menos o que quer, não é mesmo? Ironizou Netuno.
Meio sem jeito, Fofura balançou a cabeça afirmativamente. Quando abriu a boca para pedir desculpas, foi interrompido por Netuno:
- Já sei o que vai falar. Vai pedir desculpas. Desculpas é tudo que os descompromissados sabem fazer. Fazer não, falar. Gente sem compromisso é bom de lábia, porém, incapaz de agir com decência.
- Está me dizendo que ajo com indecência? Questionou Fofura assustado e ao mesmo tempo recriminando Netuno com um olhar insatisfeito.
- Ah! Está insatisfeito comigo? Está insatisfeito com as verdades que lhe digo? Ou está insatisfeito consigo mesmo? Inqueriu Netuno.
- Na qualidade de Deus, o senhor deveria me ajudar e não ficar aí me acusando. Recriminou novamente Fofura.
Netuno deu uma estridente risada rachando alguns corais mais frágeis próximos a eles.
- Ah, é! Eu é que deveria estar fazendo alguma coisa por você... E, o que cabe a você fazer por si mesmo? Não estou cobrando de você fazer pelo nosso mundo. Isto seria demais para você agora!  No momento, estou cobrando de você fazer apenas por si mesmo, pelo seu mundinho.  Mas, nem pelo seu mundo pequeno você se compromete, sua baleia egocêntrica. Repreendeu Netuno.
- Egocêntrica? O que é isto? Perguntou Fofura franzindo a testa.
- Egocêntrico é aquele ser que gira apenas em torno dele mesmo. Não consegue ter compromisso com nada e nem mesmo com ninguém. Não tem compromisso nem mesmo consigo próprio. Quer que o mundo tenha este compromisso por ele. Cobra do mundo o que deveria cobrar de si mesmo. Não faz e quer receber. Quer ter direitos; deveres jamais. Rompe acordos e não deseja pagar por isto.  Explicou pausadamente o grande Deus.
- Mas, que acordo eu não venho cumprindo? Perguntou Fofura querendo passar um ar de ingenuidade.
- Muitos! Centenas deles. Pare de fingir ingenuidade!  Voce sabe muito bem o que está deixando de fazer. Esta carinha de ingênuo só engana a si mesmo, à mim, jamais!
- Mas, eu... Antes que pudesse continuar, o grande Deus retomou o assunto.
- Mas, eu o que? Pare de  buscar desculpas esfarrapadas para seus gestos irresponsáveis. Aliás, o que os seres sem compromisso mais possuem são desculpas esfarrapadas. Sempre arranjam desculpas para justificar o que não tem justificativa e negar seu vergonhoso egocentrismo. Suas justificativas atuam como uma burca para esconder uma face vergonhosa que nem mesmo eles dão conta de olhar e conviver.
- Poxa! Voce está pegando pesado demais comigo, grande Deus. Reclamou Fofura com os olhos lacrimejando.
- Pesado está você! Daqui uns tempos, você não se meche mais. Não tem compromisso com seu corpo e nem com sua própria vida. Diga lá, com os seus amigos, familiares e outros seres que cruzam o seu caminho.
- Por favor, me diga então o que devo fazer. Implorou Fofura.
- Não vou lhe dizer nada! Como já disse anteriormente, o maior defeito dos descompromissados é perguntar o que fazer ao invés de fazer o que deve ser feito. Voce sabe muito bem o que fazer. O acordo já foi firmado. Voce, simplesmente, não anda cumprindo o seu dever. Quer direitos, direitos, direitos... E, não faz nada direito. Se quer saber de alguma coisa agora, pergunte para sua consciência. E, por hoje, a nossa sessão acabou! Finalizou Netuno.
Tuba, boquiaberto ouvia tudo atentamente. Sem dar uma palavra, pegou novamente o amigo pelas nadadeiras retirando-o dos aposentos do grande Deus. Levou Fofura para a praça de corais mais próxima, recostaram-se sobre uma linda rocha para refletir sobre o resultado do encontro. Fofura, ainda insatisfeito e exalando irritação, resolveu usar o amigo Tuba para tecer as suas viciantes justificativas de “meia tigela”. 
- Netuno é muito radical! Não entende nada que se passa comigo e com ninguém. Voce não tinha que me trazer aqui! Voce é culpado por eu estar agora mais insatisfeito ainda. Se fosse meu amigo, teria me defendido frente as sérias acusações que aquele Deus de araque me ofertou.
Tuba não acreditou no que acabara de ouvir.  Ficou ainda mais perplexo com o amigo. Comprometendo-se com a saúde e felicidade do mesmo, acabou recebendo de volta sua ira ao invés de sua gratidão. Tuba compreendeu que seres egocêntricos e sem compromisso jamais conseguirão olhar para o outro. Olham apenas para si mesmo e mesmo assim não conseguem se enxergar. Enxergam apenas a ilusão daquilo que julgam ser. Compreendeu que o único compromisso que Fofura possuía era com a mal que lhe habitava; por isso, conseguia fazer tão bem o mal a si mesmo. Bateu nas costas do amigo e falou pesarosamente:
- Sinto muito! Muito mesmo! O meu compromisso com você acaba aqui. Não existe compromisso unilateral. Talvez, esta seja a mensagem mais importante que o grande Deus Netuno lhe passou. Não temos como exigir de Deus, dos amigos, familiares, enfim do mundo aquilo que não fazemos por nós mesmos. Não vou desejar a você que fique com Deus, pois você só dá conta de ficar consigo mesmo e com este mal que lhe habita. Deixe-me afastar antes que este seu mal me atinja também. Meu grande amigo Fofura, de Fofura não tem mais nada. Só vejo dureza; e Dureza será seu nome daqui para frente.
Tuba partiu sem olhar para trás e Fofura ficou ali, parado e duro, à espera de algo que ninguém jamais faria por ele. O tempo passou e ninguém mais e lembrou da existência de Fofura. Ficou esquecido; simplesmente, esquecido. Esquecido, primeiro, por ele mesmo e depois pelo resto. A única lembrança que restou foi de uma baleia chamada Dureza. De tão dura que era virou uma pedra. Esta pedra,  no centro de uma praça, se transformou num altar  onde milhares de peixes vinham ofertar suas oferendas pelas promessas  realizadas. Dizem que o Deus Netuno é capaz de perdoar tudo, menos uma promessa não cumprida. E, como a palavra compromisso provem de “com promessa”, todo ser sem compromisso,  parecido com Fofura, acaba um dia virando pedra – pedra que machuca ou pedra no sapato da gente. E, para não se machucar com esta perigosa e desconfortante pedra, melhor atira-la para bem longe da gente.


Espaço de reflexão


 Dê uma nota de 0 a 10 para o seu nível de compromisso com:       


























0
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10

Sua saúde












Seus sonhos












Sua família












Seu (sua) parceiro (a)












Seus filhos












Seu trabalho












Sua comunidade












Sua consciência












 O Planeta












Seu lazer












Seus estudos












Amigos












Seus projetos












Sua casa












Suas finanças












Pessoas comprometidas com voce












Sua missão

























OBS: Notas abaixo de 6 indicam falta de compromisso


DESAFIO


Avalie o seu gráfico acima e se comprometa a melhorar seu desempenho nas áreas citadas

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

O NÓ DA MORTE E DA SEPARAÇÃO


Pálida e fria
Rouba-me tudo
Menos o medo arcaico
De ser sua vítima.
Vilã afável
Oferece repouso
Eterno repouso.
Nos seus braços
Só não serei furtada de mim
E sem ter ao que me agarrar
Separada de tudo que fui
Despida das obrigações
Restar-me-á apenas uma
Seguir incerta
Sem caminhos estabelecidos
Livre de tudo que fui
Cumprindo a sina de ser
Apenas eu mesma.
Passado o susto
De ter perdido
O que nunca foi meu
Refletindo sobre a vida
Que não me pertencerá mais
E que deveras nunca pertenceu
Perceberei o que não percebo agora:
A grande diferença entre vida e morte
É a ilusão que as separa




NÓ DA MORTE



Cecília vivia uma vida aparentemente tranquila, sem qualquer incômodo significativo que pudesse abalar a sua segurança. Juntamente com o marido e com o casal de filhos, projetou para si uma vida perfeita, sem percalços. A execução deste projeto de vida ia bem até que um furacão inesperado chegou varrendo toda a alegria e estabilidade que haviam construído. A mais dolorosa separação invadiu a sua casa levando o seu único filho e todos os projetos de vida com este. Depois deste terrível incidente, Cecília nunca mais conseguiu ser a mesma. Tornou-se uma mulher amarga, revoltada e sem afeto. Mesmo tendo ao seu lado o marido e a filha, dizia ter perdido tudo que possuía. Os dois se perguntavam surpresos e decepcionados: “O que significamos para ela”? Como resposta, obtinham dela a exclusividade de um vazio que nada cabia. Cecília só permitia preenche-lo com o filho perdido. Impossibilitada de preenchê-lo, utilizava a revolta para cavar cada vez mais fundo a sepultura de seu ser. Desejando ser apenas mãe do ente perdido, deixou de ser uma imensidão de coisas possíveis, dentre elas, mãe de sua filha e mulher de seu marido. Aquele incidente não levou apenas o seu filho, mas também a sua capacidade de enxergar, doar e se entregar. A vida perdeu a luz, a cor e o encanto. Afogou-se nas trevas de uma angústia que dilacerava o seu peito e a sua capacidade de amar. Querendo punir a vida, feria apenas a si mesma e a todos que a amavam. Tornou-se ausente e solitária. Infeliz, construiu à partir daquela tragédia um projeto também trágico –  “reclamar e se vitimar”.


Qual a maior dor que um ser humano pode suportar? Muitos diriam que a dor da separação imposta pela morte, ou, no mínimo, o temor desta. Até mesmo a tão falada dor do parto traz em si o sabor da primeira separação imposta ao nosso ser. A dor de uma doença que dilacera o nosso corpo, jamais será mais forte do que o temor da morte que nos espreita. A separação parece uma imposição vinda de fora, mas na verdade é sempre uma cicatriz antiga cravada no nosso mais profundo ser. Lutamos por mantê-la atada e multiplicamos a nossa guarda para que esta não seja atassalhada e transformada numa ferida que traga à alma a mais recusada dor. O desejo de querer eterno aquilo que deve ser efêmero ou o temor de separar o que empenhamos por manter junto faz com que aprendamos, desde muito cedo, a dar os nossos nós, alguma vezes, nós cegos difíceis de desatar.
Separação sempre foi um assunto tabu na nossa cultura. Melhor nem falar para não ter que enfrentá-la ou senti-la. Se tiver que falar, a técnica do “papagaio” ou da alienação é a mais segura para quem possui dificuldade de reflexão e elaboração.  Esta técnica consiste em repetir prontas citações que concedam a sensação de proteção. Ela é sempre o caminho escolhido por aqueles que carecem de discernimento e maturidade.
Há inúmeros chavões utilizados por aqueles que fogem da realidade. Vamos fazer uma reflexão sobre eles?
 “Foi Deus quem quis assim” é um discurso que justifica a nossa impotência. Colocamos desejos em Deus para que possamos controlar os nossos desregrados e irrealizáveis desejos. Concedemos a Deus o direito de desejar mais do que nós mesmos e a decidir o que temos ou não direito de conquistar. Assim, se por comodismo eu deixar de conquistar algo, é mais fácil dizer que Deus quis assim, pois não é nada bom ficar se resvalando em nossas arestas. Se há pessoas morrendo de fome, a sociedade é eximida desta responsabilidade se colocarmos em Deus este desejo sádico: torturar o ser humano com a fome e a miséria. É, também, mais aceitável perder para um Deus todo poderoso do que para um ser humano frágil, igual a nós mesmos ou por um ditador odiado porém temido. Assim, Deus passa a ser o grande ditador responsável por todas as mortes, separações, catástrofes e mazelas humanas. Enfim, passa a ter a  responsabilidade por tudo aquilo que julgamos não dar conta. E, se Deus quer assim, não preciso pensar no assunto ou fazer nada a respeito, pois nada é mais legítimo do que a vontade de Deus. 
 “Aquilo que Deus une o homem jamais separa” é um discurso que nos mantêm atados a relacionamentos ou situações extremamente doentias. Preservamos uma situação cômoda, que podendo ser rompida, jamais será nem mesmo mudada, pois foge aos interesses de pessoas preocupadas com seus egoísticos ganhos e não com o crescimento e bem estar de todas as partes envolvidas.
Ruim com ele, pior sem” nos protege da nossa temível condição de ser ou estar só, refletindo a nossa covardia e masoquismo frente e vida. Preservamos o nosso bode expiatório, senhor de nossas mágoas e de nossa eterna condição de vítima.
Encontrei a minha alma gêmea” nos traz a prazerosa sensação de estar pareado e unificado com alguém, encobrindo a nossa terrível dificuldade para lidar com as diferenças. Nos mantém atados ao prazer de estar apaixonado e não enxergar as diferenças e os defeitos que tanto nos incomoda no outro. Querer aquilo que é igual a nós mesmos demonstra o nível de nosso narcisismo. É como se quiséssemos nos casar com nós mesmos.
 E por aí vai; uma série de citações que nos possa manter cindidos e colados um no outro. Nada de laços afetivos. Nós afetivos são bem mais seguros. E, neste amontoado de nós, vamos criando um “bololô” danado. Desfazer vários nós embolados dá muito trabalho. A maioria não possui perseverança, paciência e coragem suficiente para enfrentar este tipo de trabalho. Sendo assim, optam pelas mazelas. Por que não optar pela saúde? Simplesmente, porque as nossas associações não permitem, ou seja, nos ameaçam muito mais do que nos protegem. Criamos associações perigosas relacionadas à separação. Uma delas é relacioná-la ao abandono. Esta associação errônea afasta a mais importante vivência e desafio que o ser humano necessita enfrentar – Estar só sem ser solitário, ser separado estando próximo e unido, ser indivíduo e participar da coletividade. São poucos os que conseguem viver esta paradoxal condição. 
Muitos associam separação à perda. A perda é inevitável, mas toda perda  nos presenteia com conquistas se formos sábios e soubermos direcionar o nosso olhar. A maioria passa uma vida inteira elaborando jogos que possam afastá-lo da temível condição de se sentir subtraído –“Não me tirem nada para que eu possa multiplicar meu encanto de viver” –  Estes jogos nem sempre são  limpos. Vale roubar para não ter que perder. Neste roubo, muitos saem furtados do maior bem que nos cabe por direito – a autonomia, integridade e liberdade. E, muitas vezes, somos furtados pelas pessoas que mais amamos; pelos nossos pais, nossos parceiros, etc. Quantas vezes nossa liberdade é trancada numa gaiola para conter a força de suas asas pelo medo do outro que diz nos amar. Estes aprisionamentos e furtos escondem o nosso temor da morte e da separação – temor de ver os nossos sonhos morrerem caso o outro voe mais alto do que as nossas asas são capazes de suportar.  
Associar separação à morte nos tira a energia de viver e batalhar pela nossa felicidade. Para não morrer, muitos matam. Matar nem sempre equivale a tirar a vida do outro, mas, sobretudo, tirar os prazeres que a vida oferece ao outro e  a si próprio. Parece até ser um crime em legítima defesa. Mas, na verdade, é um crime de legítimo egoísmo, possessividade e covardia.
Há aqueles que associam separação a pecado. Aliciados por algumas religiões, quantos casais optam por um infernal relacionamento, que não fere apenas a eles próprios, mas também aos filhos e demais pessoas envolvidas, para não ter que enfrentar o suposto pecado de se libertar e ao outro? Aliás, liberdade sempre incomodou e ameaçou muito a maioria das instituições religiosas. Sentindo-se culpados e numa tentativa desenfreada de reparar a sua culpa, muitas pessoas preparam uma cola bem possante que possa manter grudado aquilo que nasceu para viver separado. Grudados, perdem a mobilidade ganhando uma paralisia que os fazem sentir mais mortos do que vivos. E, mortos, acabam por temer ainda mais a morte ao invés de lutar pela vida.
A maioria das pessoas faz uma grande miscelânea de associações. Misturam abandono, perda, morte e pecado, dando nó sobre nó. Há também quem não queira se separar de ideias confusas, sentimentos doentios, padrões rígidos e valores ultrapassados, embolando ainda mais o que deveria estar desembaraçado.
Não há como negar o quanto as separações doem, principalmente quando elas não são desejadas. No entanto, há momentos cruciais da vida em que elas são necessárias para que possamos dar um novo direcionamento ao nosso ser. Tudo na natureza muda, não há nada estático e imutável. Assim, somos nós. Precisamos nos renovar. No processo de renovação, o desapego é imprescindível. Nos separamos do ontem a cada dia que nasce. Nos separamos do passado quando optamos pelo presente. Nos separamos daquilo que fomos para ser algo mais. Quando imobilizamos o nosso ser, criamos verdadeiras ameaças à nossa saúde física, emocional, mental e espiritual. Tornamos a corrente fluida da vida um verdadeiro esgoto de águas paradas repleto de lixos que deveriam ser descartados, mas que em função dos nossos apegos, preservamos dentro de nós adoecendo-nos. Existem os mais diversos tipos de lixos. Lixos físicos que circulam pelo nosso corpo em forma de toxinas, frutos de uma má alimentação e estilo de vida. Lixos emocionais provenientes de diversos tipos de sentimentos negativos, como ciúme e  a ira que destroem os nossos relacionamentos. Lixos mentais, fruto de ideias preconcebidas e preconceitos que já dizimaram milhões de pessoas pelo mundo afora. Enfim, temos verdadeiros lixões circulando pelo nosso ser, poluindo o nosso viver, sem que nos demos conta deles. O apego a estes lixões que deveriam ser descartados ou no mínimo reciclados nos impregnam com uma série de doenças. Precisamos ter a coragem de nos separar de pessoas, ideias, crenças, pensamentos, valores e sentimentos que nos fazem mal. Precisamos aceitar a morte daquilo que nos mata de forma sorrateira. A morte daquilo que nos impede crescer, faz renascer em nós um ser renovado e maduro. A morte é a manifestação de uma nova vida, portanto necessária. Há, com certeza, vida após a morte. Quem não acredita está cego e insensível a todas as manifestações que a vida nos apresenta a cada segundo. O nascimento de um dia é sempre precedido da morte do dia anterior. A morte da semente faz germinar a flor. A morte de um sentimento dentro da gente sempre culmina no nascimento de outro. O que acontece, na verdade, não é a morte, mas um eterno processo de transformação. Isto é vida após a morte. Portanto, há sempre morte após a vida e vida após a morte. E, neste processo de vida morte ou morte vida, estaremos sempre nos separando de algo.
Quando uma separação acontece precisamos enfrentá-la, jamais nega-la ou fugir dela. Ela sempre nos insere numa outra dimensão do nosso ser, consolidando uma nova etapa em nossa vida que não precisará ser melhor e nem mesmo pior que a anterior, apenas necessária ao nosso desenvolvimento.
Muitos, entretanto, forçam separações desnecessárias para fugir de uma maturidade que precisa ser alcançada numa determinada fase. Para este grupo de indivíduos, qualquer conflito, por menor que seja, sempre culmina numa separação. Hoje, a cultura do prazer a todo custo, nega a nossa relação com as dificuldades. Os que cultuam o prazer a todo custo, diante da menor frustração, separam-se de pessoas, trabalhos, lugares e vivências numa tentativa de buscar o deleite de uma vida imatura, sem problemas. Usam a máscara do desapego para esconder a sua face imatura. Por trás destas separações imaturas há o terrível medo de ter que aceitar a morte de uma parte do nosso ser que precisa amadurecer. É uma recusa em deixar a semente da maturidade brotar.  
 A vida sempre dá um jeito de nos situar frente a  realidade universal que envolve todos os seres indiscriminadamente. Em algum momento, coloca-nos diante de uma perda real, de um ente querido, por exemplo, onde não há dinheiro, posição social, título, poder ou qualquer empenho possível capaz de evitar. A história de Cecília demonstra uma das mais terríveis perdas que um ser humano é capaz de suportar. Mesmo que este tipo de perda ampute uma parte significativa do nosso ser, desmorone nossos mais valiosos sonhos, produza um vazio difícil de preencher e transforme a vida numa existência aparentemente sem sentido, é necessário seguir em frente e aceitar esta experiência por mais trágica que ele seja. Cecília não aceitou, e, como criança birrenta rejeitava tudo que a vida lhe pudesse oferecer em contestação ao desejo de ter o filho de volta. Passou a rejeitar a filha e o marido que tanto amava, como também todas as experiências agradáveis que curtia anteriormente. Foi perdendo, assim, a capacidade de amar, e quando o amor se esvai de dentro da gente, a dor aumenta e o discernimento diminui.  Quanto maior a dor, menor a nossa sensibilidade para apurar e perceber tudo a nossa volta. Neste ciclo vicioso, esta sofrida mulher demorou alguns anos para compreender, através de uma psicoterapia, o seu processo de vida. Desta compreensão, Cecília passou de criança birrenta para a maturidade. Ainda se sente amputada, mas sabe lidar com a parte que lhe falta sem precisar negar ou tirar do outro aquilo que pode com fartura oferecer: amor. Conseguiu também parar de se vitimar ao compreender que ao preservar o seu lugar de vítima teve, inevitavelmente, transformar muitas pessoas queridas em réus e o seu mundo num tribunal insuportável. Desapegar-se de uma vida que existia apenas no reino de suas fantasias foi o passo mais importante para libertar-se e viver a realidade. Por mais dura que seja a realidade, é necessário aceita-la para posteriormente transformá-la. Quando chega a separação ou a morte daquilo que demos a nossa vida, precisamos desconstruir um mundo maravilhoso que criamos dentro de nós. Precisamos ter forças para construir outro mundo tão maravilhoso quanto o anterior. Isto não é fácil; é um verdadeiro desafio.  Não é nada fácil demolir estruturas e pilares que nortearam o nosso ser por tanto tempo. No entanto, devemos nos alicerçar sempre na nossa capacidade de recomeçar. Alicerçados pela capacidade de regeneração e transformação, a morte jamais será o fim; será sempre um valioso recomeço.  Precisamos, nestas situações, aprender a lidar melhor com a nossa parte amputada sem ter que amputar o vasto restante de nosso ser com um ódio dilacerante. Precisamos, sobretudo, transcender a nossa impotência e  a nossa aparente condição incapacitante para redescobrir um ser ainda mais poderoso e forte dentro de nós.  
Para as Cecílias que rondam o nosso mundo se achando injustiçada pela vida, vale à pena prestar atenção na história abaixo onde a morte e a vida travam um interessante diálogo. Aliás, fica  também, duas perguntinhas básicas para mexer um pouquinho com seus neurônios: 1)Quem nasceu primeiro: A vida ou a morte?
2) Neste momento de sua existência, você está vivendo a vida ou a morte de uma vida anterior?
A vida nova está sempre nos rondando, embora recusemos sempre o seu convite. Nem sempre abrimos as portas para ela. Às vezes, preferimos viver o velório de uma vida que não nos cabe mais. E, sem enterra-la, ficamos ali, velando, velando eternamente... Melhor seria aceitar o convite de uma nova vida e viver eternamente...



ALMA GÊMEA

Vagando pelo universo, vida e morte se encontraram. Entreolhando-se com rabo de olho e tomadas pela curiosidade resolveram, finalmente, se aproximar e se conhecer. Ambas tiveram a mesma impressão; acharam a outra uma criatura estranha e ao mesmo tempo familiar, diferente de tudo que conheciam até então. O mais estranho é que uma atração irresistível brotou entre as duas, parecendo amor à primeira vista. Meio sem jeito, querendo iniciar uma conversa, a vida perguntou:

¾ Acho que te conheço.
¾ De onde? Perguntou a Morte.
¾ Não sei bem de onde...Completou a Vida.
¾ Éh! Você também não me é estranha. Qual o seu nome?
¾ Meu nome é Morte. Respondeu a Vida.
¾ Muito prazer! O meu é Vida. Respondeu a Morte.
¾ Onde você mora? Perguntou a Vida.
¾ Moro no universo e trabalho no planeta Terra. Respondeu a Morte.
¾ Que coincidência! Eu também.
¾ Mas como é que pode a gente não ter nunca se encontrado? Indagaram as duas mutuamente.
¾ Na verdade eu lhe disse que você não me é estranha... Relembrou Vida à Morte.
¾ Só falta a gente trabalhar no mesmo lugar e fazer as mesmas coisas.
¾ O que é que você faz lá na terra? Perguntou a Morte.
¾ Sou professora. Respondeu Vida cheia de orgulho.
¾ Não é possível, eu também sou! Exaltou-se Morte indignada com tamanha coincidência – Qual a sua linha de trabalho?
¾ Sigo o  currículo existencial. Respondeu Vida.  
¾ Deveras? Eu também estou totalmente envolvida com ele.
¾ Ele é maravilhoso, você não acha? Apesar de algumas dificuldades... Aliás, já que fazemos as mesmas coisas, podemos trocar algumas figurinhas. Dentro deste currículo, qual a matéria que você tem tido mais dificuldade em ministrar? Só falta termos as mesmas dificuldades.
 ¾ O nível básico de Humanidade não tem sido nada fácil ministrar. A maioria dos alunos possui uma grande dificuldade para assimilar.
À medida que a conversa fluía, Morte parecia cada vez mais surpresa com aquela coincidência. Jamais poderia supor que existisse outro ser tão parecido consigo mesma e fazendo as mesmas coisas. Parecia uma alma gêmea. Já ouvira falar em alma gêmea, aquela outra parte de nós mesmos que vaga pelo mundo à procura de sua outra metade, mas nunca dera atenção a isto. Para ela, este tipo de assunto não passava de um mito. Sem compreender ainda aquele fenômeno de identidade mútua, preferiu continuar a conversa para que um vínculo cada vez maior pudesse brotar entre as duas.
  ¾ Sei que Humanidade é, no planeta Terra, o aprendizado mais importante deste momento cósmico, mas não podia supor que existiam outros seres ministrando a mesma prática que eu achava ser uma exclusividade minha. Isto me deixa mais tranquila, pois sempre me preocupei muito com aquelas criaturas que resistem a este aprendizado e passam adiante sem aparentemente ter aprendido o suficiente para se tornarem verdadeiramente humanos.
Vida esboçou um sorriso tranquilo como se tivesse também tirado um peso das costas e continuou:
¾ Agora estou vendo que o grande diretor desta escola não vai fornecer diploma de humanidade a ninguém que não o mereça de fato. Parece que ele cerca de todos os lados.
¾ Acho que estou começando a compreender... Já estamos trocando figurinhas à muito tempo, passamos a eternidade nos  ajudando mutuamente e não percebemos isto. Divagou a Morte.
¾ Como assim?
¾ O aprendiz passa de você para mim, de mim para você continuamente. Só o ambiente é que muda, a proposta continua sendo a mesma. Ele só chega às vezes com uma cara diferente por ter a cada etapa amadurecido um pouco mais. Explicou Morte.
¾ Bem que eu desconfiava! Tem aluno que me parece muito familiar... Refletiu Vida.
¾ Com que tipo de aluno você tem mais dificuldade? Perguntou Morte.
¾ Com aquele que se julga o diretor da escola. Quer impor as próprias regras. São totalmente apegados  ao poder que  julgam possuir. Orgulhosos e pedantes, não se despem de seus interesses mesquinhos.
¾ Esse tipo de aluno exige da gente mais rigor, são os que mais precisam de limites. E, por cumprirmos o nosso dever de oferecermos a eles o que necessitam e não o que ilusoriamente desejam, reagem quase sempre como crianças birrentas e revoltadas.
¾ Até parece que agente dá ouvidos às birras. Ironizou Vida.
¾ Pior são aqueles que estão sempre se vitimando, achando que são os únicos a serem premiados com as lições mais difíceis. O mais complicado é que eles não enxergam tais lições como um prêmio frente ao crescimento, mas como um castigo. Salientou a Morte.
¾ Ao contrário dos outros, estão profundamente apegados à condição de vítima. São na verdade aqueles que só apreciam as lições fáceis. Acabam se tornando tão medíocres que mesmo as mais fáceis lições acabam se tornando penosas. Apesar da gente ter que concordar que há algumas lições deveras complicadas... Ponderou Vida.
¾ Mas, este é o preço da formação que eles se propuseram conquistar. Quem não desejar diploma de humano que opte então por níveis mais prematuros de ser. Sabemos que não é pior e nem mesmo melhor ser uma coisa ou outra. É simplesmente uma questão de escolha; uma condição e uma opção daquele momento existencial que deve ser respeitada. Eu sempre respeitei cada nível de aprendizado de meus alunos, nunca ofereci além ou aquém daquilo que eles realmente necessitam para transcender.
¾ Transcender cada etapa do aprendizado não é realmente uma tarefa fácil, mas é, de certa forma, fascinante, e tem aluno que aprecia bastante. Aliás, que tipo de aluno te dá mais prazer ensinar? Perguntou Vida.
¾ Adoro ensinar a todos, mas é fascinante trabalhar com quem valoriza aquilo que você tem a oferecer sem desprezar as valiosas doses de conhecimentos que oferecemos a cada segundo. Por mais difíceis que sejam, são imprescindíveis na conquista da sabedoria. Respondeu Morte denotando intenso prazer em seu ofício de ensinar.
¾ Parece que estes seres percebem, desde cedo, que ter o professor como um aliado e não como um rival é um ótimo instrumento que auxilia na construção desta sabedoria. Reforçou Vida.
¾ Ufa! Que batalha bonita a nossa! Engraçado, à medida que você fala eu me vejo em você. Refletiu Morte olhando profundamente nos olhos da Vida.
Instaurou-se um profundo silêncio. Repentinamente, Vida fitou mais fixamente a Morte nos olhos como se houvesse descoberto algo novo e com um sorriso meigo continuou:
¾ Sabe o que eu estou achando mais interessante nesta história toda?
¾ Acho que sei, pois tudo que você vive eu vivo e vice versa. Completou a Morte.
¾ Então, me fale o que é mais interessante nesta história. Perguntou Vida curiosa.
¾ Acho descobrimos duas coisas importantíssimas – a visão distorcida que o ser humano criou sobre a gente e a nova visão que podemos ter sobre a nossa verdadeira essência e missão. Respondeu Morte
¾ Eu descobri que não precisamos mais nos preocupar tanto com a formação de nossos alunos, pois... Antes que Vida continuasse, Morte deu prosseguimento à sua fala:
¾ Somos complementares, uma continuidade de nós mesmos e não...
¾ Opostos como muitos humanos nos enxergam e...
¾ Tudo que não der tempo para você fazer eu farei por você e...
¾ Tudo que não der tempo para eu fazer, você fará por mim.
—Estamos unidas numa mesma missão.
—Mais juntas do que poderíamos supor.
—Entretanto...
—Precisamos agora nos separar...
—Para continuarmos unidas para sempre.
—Pois não somos simbiose.
—Somos Vida e Morte.
—A cara e a coroa da moeda que rege o universo.
Emocionadas com tamanha identidade e compreensão, Morte e Vida deram um profundo abraço e ficaram ali, juntinhas, parecendo ser na verdade uma coisa só. Dizem que à partir daquele momento elas se fortaleceram ainda mais e ninguém as separou jamais. A mediocridade humana até que tenta, no entanto, a consciência, em suas sábias histórias, conta que Vida e Morte são almas gêmeas inseparáveis e que o grande diretor da escola onde elas trabalham provocou, propositadamente, este encontro para fortalecer ainda mais o elo entre as duas e enfraquecer a indisciplina dos alunos mais rebeldes.


ESPAÇO DE REFLEXÃO


Se deseja compreender por que motivo teme a morte ou por que motivo tem se sentido sem vida, marque com um “x” as características abaixo que se adequam a você.

(  ) Tenho deixado de viver coisas importantes em minha vida – aquelas que realmente  valorizo.
(  ) Não aproveito o que a vida tem de melhor para me oferecer. Foco, por demais, nas piores coisas que me vem acontecendo.
(  ) Vivo num ambiente triste.
(  ) Nunca questionei os conceitos negativos sobre a morte que foram a mim repassados.
(  ) Não acredito numa vida após a morte.
(  ) Acredito num Deus punitivo.
(  ) Não tenho consciência da minha verdadeira missão nesta vida.
(  ) Tenho consciência da minha missão, mas não estou exercendo-a.
(  ) Não acredito na evolução dos seres humanos.
(  )Acredito que estamos na vida apenas para pagar os nossos karmas negativos  e sofrer.
(  )Evito sempre qualquer assunto que diga respeito à morte.
(  )Tenho dificuldade para lidar com mudanças.
(  )Sou possessivo e apegado a pessoas e coisas.
( )Não enfrento as separações necessárias. Retardo-as, nego ou fujo a todo custo das     mesmas.
(  )Não exerço a minha liberdade. Coloco nas mãos do outro a minha própria vida.
(  )Exijo que a minha vida siga sempre do jeito que eu planejei ou sonhei.
( )Não sei ou não admito mudar o planejamento de meus sonhos, caso isto seja necessário. 
(  ) Meu sonho não é simplesmente um sonho; é uma exigência.
(  )Dificilmente aceito uma realidade diferente daquela que imaginei.
(  )Evito me entregar para não ter depois que separar.
(  ) Me sinto sempre a vítima, jamais a responsável pelas dificuldades de minha vida.
(  ) Nunca percebi que vida e morte são na verdade uma coisa só, ou seja, duas faces de uma mesma moeda.
(  ) Não consigo perceber que nasço e morro todos os dias.
(  ) O meu corpo e as coisas que adquiri nesta vida são mais importantes que minha alma.
 (  ) Não consigo perceber ou sentir o meu espírito.


OBS> Clique abaixo para ler temas similares:

Capítulo do "Desapego" do livro Cardápio da Alma

http://cardapiodaalma.blogspot.com.br/2012/05/agarrado-ao-outro-e-atrelado-ao-medo.html

A Sobremesa do capítulo Gratidão do livro Cardápio da Alma
http://cardapiodaalma.blogspot.com.br/2012/11/deus-nao-possui-dividas-e-nem-creditos.html


A história "A Estrelinha que descobriu o mistério da Vida e da Morte" do Livro Histórias que Curam
http://historiasquecuram.blogspot.com.br/2012_11_01_archive.html




  

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

O NÓ DO DESPREZO


FALO BRASILEIRO

MUITO MAL O PORTUGUÊS

FALO ESTRANGEIRO

E ESQUEÇO O RESTO

ESQUECIDO DO QUE SOU

I’ DON’T KNOW MAIS NADA


BRASILEIRO CAIPIRA

PORTUGUÊS ULTRAPASSADO

ESTRANGEIRO CHIQUE

OH MAY GOD

QUE LOUCURA!

HELP!


LÍNGUA BRASILEIRA

LÍNGUA PORTUGUESA

LÍNGUA ESTRANGEIRA

SÃO TANTAS AS LÍNGUAS NUMA SÓ

QUE JÁ NÃO SEI MAIS

QUAL A MINHA


FALE BEM O INGLÊS

OU CHERAP

MAL O PORTUGUÊS

E CALE A BOCA

O BRASILEIRO PARA O GASTO

PSIU!


COMO HAMBURGER

CAGO SANDUÍCHE

DELICIO RUFFLES

VOMITO BATATAS

ALIMENTO-ME COM HOT DOG

ARROTO CACHORRO QUENTE


INTERVALO PARA COFFE-BRACKE

PARADA PARA O LANCHE

SALE PARA OS RICOS

LIQUIDAÇÃO PARA OS POBRES

MERCHENDAIZE PARA SOCITE

PROPAGANDA PRA RALÉ



RESIDO-ME EM LOFT

ABRIGO-ME EM APARTAMENTO

ROUPAS NO CLOSET

BUGIGANGAS NO ARMÁRIO

BANHO-ME NA SWITE

DEFECO NO BANHEIRO


EXPONHO BANERS

PENDURO CARTAZES

ENVIO FOLDERS

ESPALHO FOLHETOS

PROMOVO WORKSHOPS

FAÇO ENCONTROS


E, PARA FINALIZAR

NÃO SEI MAIS O QUE FALAR

SEI QUE FALO INGLÊS

SOU BRASILEIRO

DA LÍNGUA PORTUGUESA

PORTANTO, THE END.


Clique em http://youtu.be/P8PVaZQKibI para ouvir a música criada à partir desta poesia pelo músico João Cantiber e pela cantora Mari Blue

O NÓ DO DESPREZO



A história que vou lhes contar é minha, talvez, sua também. Já aconteceu várias vezes aqui no Rio de Janeiro, no famoso calçadão de Copacabana. Todavia, acontece também, por todo Brasil, nas vitrines de lojas, enfim, em cada esquina onde a informação veicula e na boca de muita gente.

Será que o calçadão é nosso ou dos turistas internacionais. O ideal é que fosse de todos. No entanto, nem sempre me senti uma brasileira em alguns eventos importantes que aconteceram por aqui. Em vários deles, me senti em outro país, principalmente no que diz respeito à forma como as informações foram transmitidas. Olhando para os cartazes e faixas espalhados por vários locais do calçadão e palcos onde shows seriam realizados, me vi várias vezes perdida sem saber qual evento seria realizado. Por incrível que pareça, não foi utilizada a língua portuguesa para veicular a informação; apenas o inglês. Será que os organizadores destes eventos se esqueceram que estavam no Brasil? Será que acharam que a nossa língua oficial era o inglês? Ou será que menosprezam ou desprezam a nossa cultura e a grande maioria do povo brasileiro? Será que todos os brasileiros que frequentam a praia de Copacabana dominam o inglês? E, mais... Será que todos os turistas internacionais possuem também este domínio? É óbvio que não! Como é que uma secretaria de cultura pôde permitir um desrespeito deste à nossa identidade e à nossa língua? Como pôde acontecer isto dentro do nosso próprio território? Acho fundamental que todas as informações, principalmente numa cidade turística, sejam repassadas em várias línguas diferentes de maneira a facilitar a compreensão de tudo que o evento queira repassar para o público. Mas, parece que se esquecem do português com bastante frequência. Quantas vezes, tive que pedir ajuda a pessoas que falavam o inglês fluentemente para traduzir cartazes e faixas espalhadas pelo calçadão. Fiquei imaginando o número de pessoas que estariam transitando por ali com as mesmas dificuldades. Lamentando o fato, alguns brasileiros me aconselharam com uma pedante convicção: “Voce é quem está ultrapassada. Faça inglês se quiser compreender!”

Muitos brasileiros são mal avaliados e sofrem, de certa forma, um certo preconceito por não terem o domínio de outras línguas estrangeiras, principalmente o inglês. É constrangedor! Concordo plenamente que nos enriquecemos muito com o domínio de outras línguas estrangeiras, no entanto, quantos brasileiros podem ter acesso aos cursos de língua estrangeira neste país? Se estamos lutando ainda por uma educação para todos; se estamos ainda lutando para reduzir  o índice de analfabetismo em nosso país; se grande parte de nosso povo não consegue ainda decifrar a língua portuguesa; como podemos cobrar de nosso povo o domínio de uma língua que não seja a nossa? E tem mais... Daqueles que podem ter acesso aos cursos de língua estrangeira, quantos deles realmente querem isto? Dentro deste país, que ainda se chama Brasil, acho que poderíamos esperar, no mínimo, o respeito àqueles que possuem ainda a liberdade e o desejo de querer falar a própria língua.



O desprezo é sempre dirigido àquilo que subestimamos ou julgamos menor. Dói muito constatar que uma língua tão bonita quanto o português estará fadada ao esquecimento se não respeitarmos a nossa identidade. Usei a nossa língua como um exemplo, pois me deparo frequentemente com pessoas que já não conseguem mais encontrar palavras em português para designar termos muito simples. Percebo que o esforço é bem maior para buscar no inglês expressões ou palavras que o nosso dicionário e gramática oferecem com tanta fartura. Menosprezamos nossa riqueza linguística, dentre muitas outras que se perdem e se perderam por aí. Quero salientar que não sou contra a utilização de outras línguas no nosso universo linguístico; pelo contrário, acredito que esta abertura seja por demais enriquecedora. Só não acho justo uma abertura unilateral onde o universo estrangeiro engole aquilo que temos de mais valioso e nos faça esquecer aquilo que somos.  

O desprezo é uma erva daninha capaz de nascer em qualquer jardim. Nem sempre achamos que uma pessoa comum possa ter um tesouro a nos oferecer. Sabem por que? Porque o nosso egocentrismo não deixa. Inflamos o nosso ego para não perceber a riqueza do outro, enxergando apenas aquilo que a nossa arrogância medíocre permite. Os padrões sociais de valorização pessoal também nos ensinaram que é necessário  brilhar muito para  receber apreço e credibilidade. É necessário brilhar com títulos, poder, dinheiro, status, enfim com uma série de futilidades que não mostram o verdadeiro valor de um homem. Criou-se, à partir destes critérios sociais, as profissões mais importantes e as menos importantes, bem como pessoas, cargos, assuntos, idiomas, etc. Tudo passou a ser uma questão de mercado. A importância atribuída a algo é diretamente proporcional ao montante de dinheiro que gira ao redor daquilo. Sedentos por um lugar no ranking social, passamos a focar a nossa atenção apenas naquilo possa nos garantir uma posição privilegiada ou no mínimo segura. Focando a nossa atenção apenas nestas coisas, desfocamos para outras muito importantes e nos cegamos para o essencial. Muitas virtudes essenciais ao nosso desenvolvimento espiritual e humanitário são descartadas ou no mínimo, ficam relegadas em segundo plano. A simplicidade perde seu espaço para a sofisticação e complexidade; a sinceridade perde espaço para a falsidade e por aí vai. Fingimos ser aquilo que a sociedade privilegia e deixamos de ser nós mesmos. Com isso, somos capazes de desprezar riquezas incomensuráveis, tais como a nossa cultura, nossa língua, enfim nossos valores mais profundos. Tornamo-nos superficiais e pedantes.

Para mostrar o nosso desprezo, humilhamos quem é simples, ou mais precisamente, quem nos mostra aquilo que insistimos negar dentro de nós mesmos. O nosso desprezo é uma maneira perversa de dizer: “Eu sei o que você não sabe” ou “Eu sou o que você não conseguiu ser”. No entanto, nas profundezas do nosso inconsciente, num lugar onde não há espaço para a falsidade, estamos dizendo com todas as letras: “Temo não saber” ou “Temo não ser reconhecido”.

Fico muito preocupada quando vejo a nossa cultura e nossa língua ser desprezada dentro de nosso próprio país. Se lá fora ela não vale tanto, deveríamos, no mínimo, reconhece-la e valoriza-la nos limites de nossa Terra, se é que temos alguma. Muitos se preocupam com o risco de nações estrangeiras tomarem o nosso chão. No entanto, nossa língua está sendo roubada dentro de nosso próprio território e ninguém diz nada. Talvez possam dizer um dia: Stop! Este silêncio é uma consequência daquilo que restou de nosso idioma. Com a língua roubada, nos resta a mudez. A melhor maneira de escravizar um povo é roubando dele a sua identidade. Estamos perdendo a nossa identidade brasileira. Achamos bonito ser como o povo de fora, das ditas nações desenvolvidas. Temos vergonha de nós mesmos. Temos muitos motivos para nos envergonhar, mas não podemos esquecer que temos também, muitos motivos para nos orgulhar de nós mesmos. Somos como qualquer nação, cheia de erros e acertos. Se estivermos errando, precisamos cobrar de todos os brasileiros uma postura mais acertada. Não é desprezando o nosso país que iremos reerguê-lo. Precisamos aprender a lutar contra os estrangeiros e brasileiros desnaturados que nos dão rasteiras. E, o melhor golpe é reconhecer a nossa cidadania brasileira apropriando, de fato, da riqueza de ser brasileiro. Somos uma nação nova que precisa ainda crescer muito. Precisamos aprender também com todas as nações do mundo, sejam elas mais ou menos desenvolvidas do que nós. Precisamos de exemplos, porém sem perdermos a nossa identidade. O mesmo vale para cada indivíduo. Todo ser tem os seus recursos e as suas limitações. O reconhecimento de si mesmo e do outro é o primeiro passo em nosso processo evolutivo.

Aquilo que parece pequeno pode ser grandioso; tão grande que os nossos olhos débeis não conseguem enxergar por inteiro. Frequentemente, enxergamos apenas a parte do todo que nos interessa e  criamos a falsa ilusão de que conhecemos a realidade. Agarramo-nos a esta ilusão com toda prepotência para não sentirmos impotentes e pequenos demais. Diante do todo, tudo é importante e nada é mais importante.  Assim, aquilo que não parece ser valioso segundo as lentes de nosso desprezo é, na verdade, muito mais do que conseguimos apreender. Só a humildade é capaz de nos situar frente a realidade,  nos proteger de nossa arrogância e recuperar a nossa visão.

Tomados pela arrogância, desprezamos além de nossa identidade, muitas riquezas importantes. Desprezamos aqueles que erroneamente julgamos inferiores. Desprezamos a natureza por acreditar que ela está fadada a nos servir. Desprezamos a nós mesmos quando não possuímos auto-estima suficiente. Nossos preconceitos sustentam o desprezo que sentimos. Precisamos aprender a nos relacionar com tudo e com todos. Precisamos aprender a doar e receber.  E, lembrar sempre: Aquilo que desprezo é, na verdade, o que mais  temo nas profundezas de meu ser.”

Se você é daqueles que usa o desprezo para se sentir maior do que aqueles que você julga menor que você, talvez a história abaixo possa lhe ensinar a valorizar “aquilo que não parece ser ou ter valor”. Esta história, ao contrário de todas as historinhas inventadas por mim, foi, na verdade, um acontecimento ocorrido com meu pai a muitos anos atrás quando ele iniciou a sua vida profissional. Em alguns momentos, tem história verdadeira que parece história inventada.



O Anjo da Estrada


Parados na estrada a várias horas, sem saber o que fazer com  um caminhão enguiçado insistindo em não funcionar, três homens, já cansados e prestes a desistir do problema, foram abordados por uma criança curiosa:

-Moço, o que aconteceu com seu caminhão?

-Some daqui, menino! Berrou o assistente do motorista sem dar a mínima atenção ao menino e  bastante incomodado com a presença do mesmo.

Antes que o menino fosse embora carregando desapontamento e humilhação, o motorista, dono do caminhão, o chamou carinhosamente:

-Ei, garoto! Não liga para este moço não, ele é muito ignorante. O meu caminhão deu defeito, mas não sabemos ainda o que aconteceu. De repente, ele parou de funcionar... O mecânico já chegou para resolver o problema, mas não  conseguiu ainda descobrir o defeito.

O garoto deu uma olhada no motor do veículo como se entendesse de mecânica, e falou:

-Sabe o que é, moço... Outro dia o caminhão do meu tio também parou de funcionar assim, sem mais nem menos. Aí, eles deram uma balançada nele e ele começou a funcionar de novo.

-Balançada? Como assim? Perguntou o motorista achando estranho o comentário do garoto.

-Ah, moço... Eu até achei esquisito, mas deu certo. Juntou um monte de gente e começaram a balançar de um lado para o outro. Depois disto, viraram a chave e pronto. O motor funcionou direitinho.

Antes que o menino continuasse dando suas explicações, o mecânico olhou animado para o motorista sugerindo:

-Acho que pode dar certo. Vamos tentar? Vocês dois balançam de um lado e eu balanço do outro. Quem sabe...

O assistente do motorista franziu a testa desanimado e com ironia continuou:

 - Deixa de brincadeira, desde quando esse pedaço de gente sabe alguma coisa ?

- Mas, faz sentido o que ele falou - justificou o mecânico.

-Faz sentido nada! Resmungou o assistente.

-Se faz ou não faz, eu quero tentar. Até esse momento, pelo que eu sei, você trabalha para mim. Vamos lá, faça a sua parte, ajude a balançar! Determinou o dono do caminhão.

Muito a contra gosto, o assistente ajudou a balançar o veículo. O garoto sentindo-se considerado e cheio de moral pôs-se a ajudar oferecendo a sua força de criança, porém revestida com uma determinação de adulto. Antes que o mal educado assistente pudesse novamente oferecer a sua ironia, o motorista correu até a cabine e virou a chave. O caminhão estremeceu-se todo, roncou forte como se quisesse dizer:

-Funcionei!

O dono do caminhão olhou no fundo dos olhos de seu assistente dizendo:

- Nunca duvide da boa vontade e da sabedoria de uma criança.

O assistente não sabia onde esconder a sua cara. Da ironia ao espanto, engoliu seco e com seu olhar no chão, não teve a coragem e nem mesmo a humildade de pedir desculpa ao garoto que salvou o seu dia. No entanto, o dono do caminhão se aproximou do garoto e externando gratidão disse:

-Muito bom! Senão fosse por você, ficaríamos nesta estrada até sei lá quando...

-É verdade! Confirmou o mecânico.

O dono do caminhão lhe ofereceu uma boa gorjeta, mas o que o garoto queria mesmo, já tinha conseguido: ajudar e ser reconhecido.

Quando ouço histórias assim, fico pensando até que ponto este garoto não era um anjo da  guarda querendo não somente ajudar, mas sobretudo dar o seu recado:

"Não subestime nada e ninguém. Por menor que possam parecer, as pequenas coisas podem nos trazer grandes soluções".



ESPAÇO DE REFLEXÃO



Marque abaixo as atitudes que você adota, mesmo que eventualmente. Depois desta reflexão, esforce-se para não continuar desprezando pessoas ou situações que poderão torna-lo um ser  mais humano que realmente preza a vida que lhe foi confiada.


(  ) Me acho mais importante que certas pessoas

( ) Não possuo desejo ou tempo para escutar pessoas socialmente consideradas inferiores a mim

(  ) Acho que crianças, empregados ou “subalternos” foram feitos apenas para obedecer

(  ) Não levo a sério o que  crianças falam por considera-las imaturas

(  ) Acho os “velhos” ultrapassados

(  ) Sempre achei meus pais caretas, bem como as pessoas da idade deles

(  ) Adolescentes são tolos aborrecentes

(  ) Sinto vergonha de me relacionar com pessoas muito simples

(  ) Menosprezo os conhecimentos populares

(  ) Acho minha língua “brega’, por isso, utilizo com bastante frequência palavras estrangeiras para passar uma impressão de que sou sofisticado

(  ) Subestimo pessoas com baixo nível de instrução

( ) Rejeito pessoas de grupos sociais, raciais, religiosos e culturais diferentes do meu

( ) Tenho uma grande tendência a valorizar apenas os países ditos desenvolvidos, ou estados e  cidades mais desenvolvidas que a minha

(  ) Não me interesso pela história ou cultura dos ditos países de 3º mundo

(  ) Valorizo apenas quem é hierarquicamente igual ou superior a mim




DESAFIO


Escolha uma pessoa que voce julga inferior a voce em algum aspecto e se dedique a conversar profundamente com ela durante, pelo menos, uma hora. Procure identificar um potencial bem desenvolvido na mesma e pouco desenvolvido em voce. Feito isto, a distância entre voces diminuirá significativamente.