domingo, 13 de maio de 2012

O NÓ DO CONSUMISMO


TEMENDO AS MARÉS DE SEU VAZIO

CONSUMIA

PERDIDO NA IMENSIDÃO DE TUDO QUE NÃO PODE SER POSSUÍDO

CONSUMIA

CONSUMIA E SUMIA

NO MAR DE FALSOS CONTENTAMENTOS

SUBMERSO PELA ILUSÃO DE TER

AFOGOU-SE NAS ONDAS DE SEUS DESEJOS INSACIÁVEIS

PERCEBENDO A VIDA DISTANTE

DA ORLA QUE SEMPRE REJEITOU

SEM FÔLEGO

ASFIXIADO PELO MAR DE COISAS QUE NÃO PREENCHEM A ALMA

INUNDADO POR FUTILIDADES

PRECISANDO SE ESVAZIAR

                                         DEBATEU-SE  

DA ORLA REJEITADA SURGIU O SOCORRO

TRAZENDO-O DE VOLTA

AO DURO CHÃO QUE ANCORA O SER

QUE NEM TUDO PODE TER




O NÓ DO CONSUMISMO



Ter coisas era o principal objetivo de Fabiana. Foi encaminhada para a terapia por uma tia que desejava ajuda-la  pensar um pouco mais em ser uma pessoa madura e não somente uma criança mimada, preocupada em se presentear e ser presenteada.

A vida lhe deu algumas regalias, dentre elas, um marido trabalhador que além de satisfazer todos os seus desejos, possuía uma grande dificuldade para lhe impor limites, o que facilitava e estimulava o comportamento compulsivo consumista de Fabiana.

Acostumada a ter coisas e consumi-las, não valorizava aquilo que tinha. Chegava a pregar, orgulhosamente, que não era apegada a nada, no entanto, o que possuía não era a virtude do desapego, mas o grande defeito de não valorizar nada daquilo que lhe fora ofertado, gratuitamente , pela vida. Estabelecia com as pessoas ao seu redor a mesma relação que mantinha com as coisas. As pessoas eram bem vindas se pudessem lhe oferecer algo. Seus relacionamentos sempre foram extremamente empobrecidos. Não recebeu na infância o amor que necessitava, possuía pais preocupados apenas com aquisições materiais e capazes de usar os próprios filhos em seus joguetes de poder. Os pais se separaram quando um deles deixou de ter as coisas materiais que o outro necessitava. Fabiana demonstrava uma forte tendência a repetir a mesma história com o marido. Este, sabendo, inconscientemente, desta regra do relacionamento, não deixava de oferecer as coisas que ela desejava por medo de perdê-la.

Fabiana não conseguia ser uma mãe de verdade. Tinha um lindo filho de dois anos que era também usado para manipular o marido e para brincar de boneca, como quase toda criança gosta. Adorava desfilar e exibir o filho com as roupas e brinquedos novos que comprava na passarela da vida fútil que levava. Quem via, achava que Fabiana amava o filho, no entanto, o que ela amava eram as brincadeiras que podia fazer com o mesmo. Não dava a ele a chance de desejar, com isso, este foi desenvolvendo sérios problemas emocionais. Desta mãe ele ganhava tudo, menos o seu amor autêntico e o tão  indispensável limite que toda criança necessita.

Fabiana não conquistou o marido, tramou um jogo sujo para possuí-lo. Inicialmente, assim que o conheceu, o rejeitou, pois este não possuía recursos financeiros que pudessem satisfazer os seus mesquinhos interesses. Depois de algum tempo, já dotado de uma boa situação financeira, o marido se interessou por outra garota e firmou com esta um sério relacionamento. À partir disto,  Fabiana despertou em si o desejo de possuí-lo, não só para usufruir dos recursos que o marido conquistara, mas também, para provar para a sua concorrente  que possuía mais poder de sedução do que ela. Em parceria com um rapaz dotado de uma personalidade bem parecida com a sua, tramou um história perfeita de traição fazendo com que o marido acreditasse que tivesse sido traído pela namorada. Conseguiu fazer com que os dois rompessem o namoro e deu um jeito de se engravidar rapidamente para garantir sua posição de esposa.

Fabiana nunca se interessou pelos estudos. Sempre foi uma má aluna, muito agitada, dispersa, irresponsável e desinteressada. Nunca trabalhou, mas chegou durante a terapia a cogitar a possibilidade de iniciar um trabalho. Contudo, estabelecia com esta ideia a mesma relação que uma criança estabelece com suas brincadeiras de faz de conta. Queria mais brincar de “ser” alguma coisa do que viver realmente esta posição.

Nada do que fazia lhe causava sentimentos de culpa, pelo contrário, tinha orgulho de si por se achar uma pessoa muito esperta e capaz de conseguir tudo que desejava. Apresentava fortes indícios de ser portadora de uma personalidade psicopática. Não foi capaz de dar continuidade à terapia, pois jamais se interessou em adquirir mais sabedoria e auto-conhecimento. Se interessava apenas em ter e usar coisas e pessoas. “Consumir era o seu lema”.


Não é necessário sermos doentes e perversos como Fabiana para nos tornarmos pessoas consumistas. Há muita gente boa obcecada por consumo. A sociedade nos educa para isto, cabe apenas à nossa consciência colocar limites a esta doença coletiva que aflige um grande contingente de pessoas. Assim, não precisamos, necessariamente, ter como Fabiana, traços marcantes de sérias patologias para desenvolvermos uma personalidade consumista, basta fazermos parte desta sociedade capitalista onde as coisas materiais possuem mais valor do que o próprio ser humano que as criou. Quando saímos às ruas somos metralhados com a informação – “Compre!”. Se ficarmos em casa e ligarmos a TV, somos metralhados da mesma forma. Receber esta informação desde criança faz de nós um produto interessante para o mercado e faz dos produtos que o mercado oferece um bem indispensável à nossa vida.  Desde a infância somos condicionados a sermos pessoas compulsivas, entretanto, não percebemos isto com a mesma clareza que os nossos olhos percebem os produtos nas vitrines deste mercado perverso. A consciência não se desenvolve presa na jaula dos condicionamentos a que estamos sujeitos a todo o momento. Com a nossa consciência amputada, fica muito difícil se libertar.  

As relações passaram a ter um papel secundário nesta sociedade onde as aquisições materiais são relevantes para se medir o valor e a competência de uma pessoa. A riqueza é medida pela quantidade de bens materiais e não pelas virtudes que uma pessoa possui. A competência e o sucesso são medidos pela quantidade de diplomas e não pelo real trabalho que um indivíduo executa em prol da sua comunidade. O número de títulos vale mais do que a experiência. Assim, educação passou a ser também, mais um produto lucrativo, deixando de crescimento pessoal e profissional. As escolas, cada vez mais preocupadas com o número de alunos, se esquecem da qualidade de ensino repassada aos mesmos. Com a saúde aconteceu o mesmo. Ter um bom plano de saúde passou a ser mais importante do que ter uma boa qualidade de vida capaz de lhe proporcionar bem estar físico, mental e espiritual. Quantas experiências gratificantes deixam de ser vivenciadas para sobrar, no final do mês, dinheiro para pagar o plano de saúde ou o seguro de vida?

Estamos vivendo num mundo de ilusões e o pior, acreditando fielmente nelas. Acreditamos que seremos felizes e estaremos seguros se tivermos tudo aquilo que o mercado prega como indispensável à nossa vida. O nosso tempo é, quase totalmente, investido em trabalho árduo para pagar estes bens que o mercado nos oferece como garantia de uma vida tranquila. Com isto, sobra cada vez menos tempo para as pessoas que amamos e para nós mesmos. Um grande buraco se abre dentro de muitos. Para diminuir a profundidade deste vazio, comprar compulsivamente passa a ser uma ilusão que atua como um ansiolítico e como um antidepressivo que diminuiu o nosso mal estar diante do crescente sentimento de falta. A falta é inerente ao ser humano, no entanto, nem todas as pessoas conseguem lidar de forma saudável com a mesma; substituem o Ser pelo Ter.

O mercado dita o que ter e o que devemos ser. Devemos ter um corpo perfeito, malhado, sem celulite, rugas, estrias, dentre outras exigências saudavelmente inalcançáveis. Devemos usar certos produtos que nos darão status e nos deixarão jovens mesmo depois dos 100 anos de vida. Envelhecer é sinal de incompetência e não mais um ciclo natural da vida. O corpo é esticado, aspirado, cortado, enfim, deformado para manter a imagem que enche os cofres de um mercado sujo que não tem o mínimo comprometimento com a vida e com a verdadeira saúde. Poucos são os que conseguem, hoje, tirar uma foto e aceitar a própria imagem nela refletida. Usam de todos os recursos de photoshop para criar uma imagem que possa valer alguma coisa na mente doentia de uma sociedade que não consegue lidar mais com o natural, com o verdadeiro. Vendemos uma imagem falsa para sermos aceitos, desejados e amados. Ha pessoas que só dão conta de desejar e amar o padrão de beleza que esta sociedade consumista podre construiu. Desconhecem o verdadeiro amor. Nenhuma cirurgia plástica é capaz de construir uma mente saudável e um ser humano mais consciente. O amor é livre,  jamais habitara o cárcere de quem mantem a alma aprisionada a um padrão tão mesquinho e pequeno de ser.

Precisamos cada vez mais obter coisas; concomitantemente, nos estressamos mais na medida em que precisamos dobrar a nossa carga de trabalho para ganhar mais dinheiro e cumprirmos o nosso dever como bom consumidor. Viver com menos — “menos coisas”— está se tornando cada vez mais difícil, já que este empenho em obter e garantir o lado material da vida tem nos obrigado, consequentemente, a viver com menos tranquilidade e menos saúde. Por que não me permito ter menos coisas e me permito ter menos saúde? É possível ter um pouco menos para conquistar um pouco mais de saúde e equilíbrio?

Possuir tornou-se mais importante do que conquistar. Assim como Fabiana, muitas pessoas travam jogos sujos para obter aquilo que desejam sem avaliar o grau de prejuízo que estão proporcionando ao outro ou ao meio ambiente. Não aprendemos a consumir de maneira sustentável. Consumimos alimentando muito mais a nossa ignorância do que aquilo que precisa realmente ser nutrido. A alma é violentada para nutrir um ego escravizado pelos interesses do mercado. A violência é perpetuada com a nossa recusa em se tornar consciente. Nos tornamos impotentes frente a expansão e força de nossa alienação.  Impotentes, sentimo-nos fracos e cada vez mais necessitados destas ilusórias seguranças que o mercado nos oferece. Um ciclo vicioso se instaura e dificilmente conseguiremos sair dele se não pararmos para repensar, avaliar e resignificar a própria vida.

Quem disse que a escravidão acabou? O número de escravos aumentou, pois a clientela se diversificou. O grande senhor chamado mercado dita as regras e as seguimos sem questionar temendo o “tronco” da rejeição que a sociedade impõe aos dissidentes. Ser um dissidente não é fácil. Talvez seja praticamente impossível libertar toda sociedade, no entanto, alforriar-se já é um bom começo.  Quantas pessoas se prostituem para atender a lei que o mercado impõe. Não falo aqui da prostituição do corpo, mas da prostituição da alma, de seu talento, de sua competência. Vejo artistas, profissionais competentes vendendo lixo quando poderiam vender ouro. Obras vergonhosas, sem qualidade e conteúdo são jogadas no mercado porque existe um grande contingente de pessoas vazias prontas a consumi-las. Atendimentos precários de saúde são oferecidos à população, por existir uma clientela mais interessada em usufruir seu “plano de doença” do que em ser bem atendida, orientada e tratada. Fico preocupada quando vejo um mundo de pessoas doentes e carentes de referências saudáveis de vida metralhadas pela perversidade daqueles que não possuem compromisso com a construção de um mundo melhor.

Mesmo que você se sinta um escravo de toda conjuntura econômica e social, não desanime.  A história abaixo não lhe dá a carta de alforria, mas oferece importantes recursos que poderão ser usados a favor de sua liberdade.




UM LUGAR ONDE O MÍNIMO ERA O INDISPENSÁVEL




Recanto da Harmonia era um vilarejo habitado por pessoas bem diferentes da maioria que conhecemos ou, mais precisamente, de nós mesmos. As casas eram todas diferentes. Cada uma delas tinha um estilo próprio, bem parecido com o dono que a habitava. Por outro lado, todas elas eram parecidas num determinado aspecto – a simplicidade. O mesmo acontecia com cada habitante deste vilarejo. Cada um possuía um estilo próprio, uma personalidade diferenciada, mas se pareciam muito no que diz respeito à maneira de encarar a vida. O contentamento era a maior riqueza almejada por cada um deles. Ninguém desejava mais do que precisava e todos eles possuíam a plena consciência daquilo que era realmente indispensável à vida de cada um e da comunidade.

Intrigados com a harmonia daquele lugar, estudiosos de vários lugares do mundo passavam por ali, estudando e entrevistando as pessoas aparentemente pacatas daquele povoado numa tentativa de montar uma teoria que pudesse explicar a razão para tanta tranquilidade. Numa destas entrevistas, um renomado cientista social perguntou:

—Qual a tática usada para construir uma sociedade tão harmônica?

—Precisamos de muito pouco. Respondeu Pacífico, o habitante mais velho daquele lugar que inspirava a paz que seu nome sugeria.

—O que há de tão significante no pouco? Ter pouco na nossa sociedade é um sinal de pobreza ou miséria. Indagou o sociólogo.

—Para nós é um sinal de abundância, pois temos pouco por opção e não por imposição. Precisar é um sinal de falta. Quanto mais precisarmos, mais falta sentiremos. Se precisamos de pouco é porque já temos o suficiente. Ninguém repete um prato de comida se já estiver plenamente saciado; a menos que esteja doente, dominado pela gula.

—No meu mundo tem muita gente gulosa. Apesar da gula ser um pecado, poucos conseguem resistir a ela. Aliás, sem o pecado da gula ficaria difícil manipular o nosso povo. Todo pecador se sente culpado. E, é fácil manipular culpados. Aqui não existem gulosos?

—Não. Como já lhe disse, temos o suficiente. Reafirmou Pacífico.

—Quem normatizou para vocês o conceito de suficiente?

—A nossa consciência. É ela quem comanda a nossa vida. No mundo de vocês há algo além da consciência funcionando como um referencial de vida?

—Há a consciência de mercado ditada pela mídia, 24 horas por dia. Esta consciência nos diz que produto devemos adquirir para sermos valorizados ou para nos tornarmos felizes e saudáveis. Esclareceu o sociólogo em tom de lamento.

—Não conhecemos esta consciência por aqui.

—Ainda bem!

—Por que? Você não parece gostar desta consciência. Há algum problema com ela? Perguntou Pacífico querendo conhecer um pouco mais o insano mundo daquele curioso sociólogo.

—Ela nos engana. Vende ilusões. Pagamos caro e jamais usufruímos o produto que ela nos oferta.

—Como assim? Não estou conseguindo ordenar as minhas ideias para entender o que você está falando.

—Acho que será muito difícil para você entender uma ordem alicerçada por uma grande desordem. O mercado desordena a nossa vida. Esta desordem gera pessoas confusas, portanto, mais passíveis de serem manipuladas.  Nos faz acreditar que seremos mais felizes, desejados e realizados se adquirirmos certos produtos, aliás, todos. No entanto, observamos uma onda de grande insatisfação crescendo dentro de todos nós a cada dia. Nada nos satisfaz. Quem tem o capital compra tudo que o dinheiro pode comprar, mas não consegue comprar este contentamento que vejo nos seus olhos.

—E, quem não tem o capital? Perguntou Pacífico mesclando confusão com curiosidade.

—Este aí, coitado... Vive sonhando com o dia que conquistará os recursos financeiros para comprar estas ilusões.

—Mas, vocês não se dão conta de que o mercado jamais dará conta de fazer o que cabe a cada um conceder a si próprio? Mesmo enganados, anos a fio, vocês não se deram conta ainda da realidade? Inquiriu Pacífico num tom de censura.

—Quando a realidade bate na nossa porta o mercado lança um novo produto. Completou, sarcasticamente, o sociólogo.

—E daí?

—E daí que, o produto anterior deixa de ter valor e aquele que foi lançado passa a ser o grande Deus que nos presenteará com o paraíso. Assim aquilo que temos perde o valor fazendo com que passemos a desejar, ardentemente, aquilo que nos falta.

—Então, vocês valem por aquilo que possuem e não por aquilo que são.

—Justamente! Confirmou o sociólogo.

—No seu mundo, existe mais alguém que já conseguiu perceber tudo isto que você já percebeu e relata com tanta clareza?

—Existem milhares de pessoas que já perceberam isto; algumas, até mais do que eu.

—E, por que vocês não fazem nada? Perguntou Pacífico indignado.

—Porque somos viciados. Sabemos o mal que esta droga chamada consumismo nos faz, mas não damos conta de lutar contra ela. O mercado é como um traficante que nos aponta uma arma todas as vezes que o desafiamos. Acho que temos medo de morrer se não usarmos esta droga, ou no mínimo, sofrermos a síndrome de abstinência. O mercado é sujo; mata a nossa auto-estima se desafiarmos as suas leis. Assim, adotamos a identidade que eles julgam mais apropriada para nos sentirmos vivos e valorizados. Usamos a roupa da moda, compramos o carro do ano, moldamos nosso corpo conforme as regras do mercado e por aí vai... Todas as vezes que nos sentimos ansiosos, tristes ou frustrados, tomamos uma dose de nossa droga , facilmente comprada em qualquer esquina, exposta nas mais lindas vitrines, e por alguns instantes, tudo parece voltar ao normal.

—Mas, existe uma forma de mudar tudo isto. Desafiou Pacífico, querendo oferecer uma alternativa que pudesse minimizar as insatisfações daquele sociólogo que parecia impotente, mas, ao mesmo tempo, ansioso para mudar a realidade de seu mundo.

—Me dê a receita que eu experimentarei hoje mesmo. Ironizou desacreditado.

—Pelo tom de sua voz, percebo que não acredita em mudanças. Sem fé, você não experimentará a receita mais gostosa desta vida.

—Qual? Perguntou o sociólogo enrugando a testa

—Você mesmo. Se não acreditar que pode experimentar a si próprio, vai ser sempre um produto deste mercado sujo que você diz desprezar.

—Mas, eu desprezo mesmo! Afirmou enfaticamente o sociólogo.

—Será? Você daria conta de viver como nós vivemos? Desafiou Pacífico.

—Certamente eu teria que me tornar uma outra pessoa. Conjecturou o cientista social.

—Teria que tornar a pessoa que és de fato. A que tens sido é um mero produto.

—Como é que eu posso me tornar eu mesmo?

—Alguns passos importantes terão que ser dados. Cada um no seu tempo. Não adianta querermos dar um passo maior do que as nossas pernas. O máximo que conseguimos com tal atitude é tropeçar e nos ferir.

—Qual o primeiro passo? Perguntou ansioso como se estivesse buscando uma salvação.

—Saber qual a parte de você pertence à sua alma e qual pertence ao mercado.

—Mas, como se faz isto?

—Sendo sincero e honesto consigo mesmo. Respondeu com firmeza o ancião daquela comunidade.

—Como assim?

—Tem gente que prefere uma vida de faz de conta. Esclareceu Pacífico

—Prefere acreditar que é o máximo, por exemplo? Perguntou o sociólogo buscando um esclarecimento maior.

—Por que vocês precisam ser o máximo? Não dá para simplesmente ser?

—“SER”, o que isso? A palavra Ser é muito vaga.

—É justamente neste ponto que entra o segundo passo — Aprender a diferenciar o que é vago do que é simples. Tornamos a simplicidade vaga todas as vezes que rejeitamos vivenciá-la. Esclareceu Pacífico com um profundo desejo de despertar uma reflexão em seu entrevistador.

—Você está querendo dizer que rejeito viver o meu SER?

—Mais do que isto. Quero lhe falar sobre o terceiro passo. Quem vive profundamente o seu SER deixa de percebê-lo como vago. Pelo contrário, ele passa a ser profundo. Tão profundo, que nem sempre nos aventuramos a dar este mergulho.

—Me sinto sufocado só de pensar na profundidade deste mergulho. Suspirou .

—Quando tiveres coragem para mergulhar profundamente em si mesmo, os outros passos fluirão automaticamente, um cadenciado pelo outro demarcando uma caminhada gostosa e tranqüila.

—Provavelmente, neste momento, pouco importará a marca ou a quantidade de calçados que coleciono em meu guarda-roupa. Completou o sociólogo, humorado, externando um sorriso carinhoso com nuances de agradecimento.

—Justamente! A confecção de sua própria marca é que fará a diferença. E, se sua marca for de qualidade, não será necessário colecionar outras.

—Acho que, neste momento, a melhor propaganda seria: “Se é bom, não precisa ser substituído. Dá para ser único!”. Ou ... “Não compre, fique com o seu; com certeza é o melhor! Pronunciou ativamente como se estivesse num comercial de TV”.

 Olhando no fundo de seus olhos, Pacífico elogiou com ternura:

—Bom Comercial! Bem pessoal, eu diria! Entendeu agora porque não precisamos de muita coisa?

Depois desta entrevista, o sociólogo voltou ao seu mundo. Sensibilizado, conseguiu mudar muita coisa em sua vida, mas não conseguiu mudar o mundo em que vivia. O máximo que conseguiu foi escrever um livro que não alterou o perverso sistema capitalista, mas que sistematizou uma série de reflexões e mudanças na vida de muita gente.




ESPAÇO DE REFLEXÃO



Responda e depois mude alguma coisa, caso seja possível mergulhar em si mesmo:

1.     Quantos pares de sapatos você tem? Todos eles são imprescindíveis para a sua vida?

2.     Você precisa realmente de todas as peças de roupa que estão no seu guarda-roupa? Se não, porque não as repassou para quem, de fato, necessita delas?

3.     Voce precisa destas coisas todas que anda guardando a anos  em gavetas e armários de sua casa?

4.     Sinta o cheiro e aspire a energia destas coisa que estão guardadas a anos. Cuidado! Se voce não adoecer, perceberá, no mínimo, que o odor delas é insuportável.

5.     Este produto que você tanto deseja comprar, vai mudar o que na sua vida?É possível viver bem sem ele?

6.     Dentre tudo que você possui, o que é realmente significativo e necessário?

7.     Comprar é o seu ansiolítico preferido? Você só se sente melhor depois de ter comprado alguma coisa?

8.     Você se sente pior do que alguém por ter menos coisas do que ele?

9.     Você tem sempre a sensação de que lhe falta alguma coisa?

10.    Ter vai fazer de você um Ser melhor?

11.    Você sabe diferenciar seus desejos de suas necessidades?

12.    Você consegue colocar limites aos seus desejos?



DESAFIO



Faça uma limpeza em seus armários. Desapegue-se de tudo que voce não usa. Doe a quem, realmente,  precisa daquilo que voce não precisa mais. Depois deste exercício, voce sentirá um grande espaço se abrindo dentro de ti. Este espaço novo, ha de acolher aquilo que voce realmente precisa.

“Às vezes, estamos tão entupidos com futilidades que não sobra mais espaços para nós mesmos dentro de nossa própria vida”.


domingo, 6 de maio de 2012

O NÓ DA VÍTIMA


DOLORES

NÃO SEI,  POR QUE ESTE NOME

MAS DOLORES NÃO TINHA DORES

NEM A DOR DO PARTO SOFREU.

SUA SINA SOFRIDA

NÃO ERA, POR ASSIM DIZER,

POR ELA SENTIDA.

DOLORES SEM DORES

NÃO PODIA SER DOLORES

SEUS PODERES INDOLORES

TALVEZ VIESSE DAS FLORES.

DAS FLORES NASCEM DOLORES SEM DOR

DAS FLORES GERMINAM DOLORES

DESABROCHADAS

ABERTAS PRA VIDA

SEM MEDO DE TER UM NOME

UMA SINA

OU UMA IDENTIDADE QUE ANIMA.

DOLORES SEM DORES NÃO SOFREM

O DESTINO CONSTROEM

 SEM O LAMENTO

DAQUILO QUE NÃO PÔDE SER

DAQUILO QUE NÃO PÔDE TER.

SEM DORES

DOLORES ENFRENTA HORRORES

MAS OS HORRORES DE DOLORES

NÃO SÃO PARA ELA

TÃO FEIOS ASSIM




O NÓ DA VÍTIMA



A Dolores desta história era bem diferente da Dolores da poesia acima. Era uma mulher muito sofrida; pelo menos, é o que desejava transparecer. Sua vida não era ruim, pelo contrário, possuía uma vida sonhada por muitos – estabilidade financeira, boa casa, um bom marido e filhos carinhosos e atenciosos. O que faltava a Dolores? Esta era sempre a pergunta que todos se faziam. Faltava a ela a coragem de abandonar a sua condição de vítima. Dolores não era vítima de ninguém, apenas de si mesma. O seu mundo externo era farto, mas, o seu mundo interno muito pobre, talvez, miserável. Tinha vocação para a tristeza. Vivia reclamando de tudo. O seu corpo era um depósito de doenças, todas elas psicossomáticas. Na sua cabeça, ninguém prestava e havia sempre alguém desejando seu mal. Fazia questão de se lembrar, todos os dias, das pessoas que, ao longo de sua vida, haviam lhe provocado algum desagrado ou algum mal. Parecia ter saudade da dor que estas pessoas lhe ofertaram. Colecionava  dezenas de algozes, seu álbum de figurinhas amargas era folheado todos os dias, aliás, este era o seu hobby e a sua maior diversão. Possuía um bom emprego, mas sentia-se explorada e desvalorizada por seus colegas de trabalho. Nunca cumpria adequadamente suas atividades profissionais, pois estava sempre faltando por motivo de doença. Coleciona também, atestados médicos. Quando Dolores adoecia de fato, curiosamente, obrigava-se a trabalhar. Agredindo-se e desrespeitando-se, comparecia ao trabalho pontualmente, totalmente debilitada, pronta a executar com dificuldade suas atividades. Quando estava bem, inventava pequenos motivos para não comparecer ao trabalho, principalmente em dias de muito aperto. Este seu comportamento deixava todos muito confusos.
Muita gente tinha pena de Dolores e ela adorava esta condição. É difícil entender como o marido e os filhos a suportavam. Na verdade, ela teve a sorte de encontrar personalidades complementares, ou seja, co-dependentes onde um precisa da doença do outro para sobreviver. Pode ser que a melhora de Dolores não interessasse muito a eles. Em alguns casos, muitos deixam de se sentir úteis e importantes quando o outro melhora. Em outros casos, se sentem menos fortes e com menos comando diante da recuperação da vítima. ”Enquanto ela for frágil, eu serei o forte e o portador do comando nesta família”. Independente do incentivo que Dolores tinha para continuar assim, ela poderia mudar a sua condição caso desejasse. Mas, continuava a mesma, anos após anos. Na terapia, debulhava o seu rosário de lamentações. Não aceitava outro tipo de trabalho que não fosse o de relembrar, dezenas de vezes, as mesmas histórias de rejeição ou exploração. O tempo não passava para ela, estava sempre lá, no passado, agarrada a algum fato desagradável. Mesmo que já houvesse passado 30 anos, falava inúmeras vezes o mesmo fato como se ele tivesse acontecido hoje. As intervenções terapêuticas nunca eram, de fato, processadas. Rejeitava e deletava a consciência que deveria ter dos fatos, voltando na sessão seguinte com a mesma história.
Muitas Dolores que procuraram terapia mudaram radicalmente a vida, esta, no entanto, continuou sempre a mesma.



Para uma vítima há sempre um perseguidor e vice versa. Se a figura do perseguidor não existe, ela sempre dá um jeito de criá-la. Produzirá uma situação conflituosa, real ou imaginária, onde o perseguidor possa protagonizar ofertando-lhe o seu papel de vítima. Se não puder representar este papel, sente-se sem lugar no palco da vida, portanto, inútil e sem valor. A vítima é como aquele artista imaturo que só sabe representar um tipo de papel. Não se esforça para crescer e atuar de forma diferente frente a vida. Perde a possibilidade de desenvolver-se como ser humano, no entanto, a sua estreita consciência, totalmente voltada para os pequenos ganhos secundários relacionados à atenção e afeto, faz com que abra mão da grande conquistas – transformar-se numa pessoa responsável pelo seu processo de crescimento. O crescimento da vítima sempre depende de alguém e como ela não deseja crescer para não perder o seu papel de coitada, dará sempre um jeito de acreditar e fazer os outros acreditarem também que o seu perseguidor não deseja o seu desenvolvimento.

A linha que separa a vítima de um guerreiro é muito tênue. Ao longo da vida, podemos ser vítimas de alguém. Há sempre algo ou alguém servindo de obstáculo no nosso caminho. A grande diferença entre o guerreiro e a vítima é a postura diante das dificuldades e não os obstáculos em si.

O quadro abaixo demonstra a diferença entre o comportamento da vítima e do guerreiro frente os obstáculos:



VÍTIMA
GUERREIRO


Cria os obstáculos
Jamais cria os obstáculos; enfrenta-os
Paralisa
Segue em frente
Desanima-se
Motiva-se
Adoece
Cresce
Reclama e bate sempre na mesma tecla
Cria estratégias diferentes
Só quer ser o ajudado
Ajuda quem estiver junto



É mais fácil curar um comportamento de vítima do que uma personalidade já estruturada como tal. Daí, a importância de criarmos os nossos filhos para serem guerreiros. Muitos casais, guerreando entre si, estruturam os próprios filhos para serem vítimas do parceiro vilão. Agindo assim, fortalece e delega ao outro o papel de perseguidor e a si mesmo o papel de vítima. Muitos deixam de ser pai e marido para ser o vilão ou deixa de ser mãe e esposa para ser a vilã. Já tive muitas clientes, vítimas dos maridos; criavam situações para que os filhos também pudessem se vitimar. Carentes, faziam de tudo para que estes dirigissem o olhar para tudo que o pai estava deixando de oferecer. Aquilo que o pai fazia de bom, jamais era considerado uma virtude, apenas uma insignificante obrigação. Existem também os homens que fazem os mesmos jogos, no entanto, como é bem menor a quantidade de homens que procuram terapia, atendi um número bem maior de mulheres. Homens, geralmente, não gostam muito de serem vítimas de mulheres, preferem serem vítimas de outros homens. Ser vítima de uma mulher, talvez lhes diminua a masculinidade.

A quem crie situações agressivas ou de risco e para se tornar a vítima heroica. Envolvem-se em brigas, acidentes, disputas agressivas, enfim em uma série interminável de situações para receber o troféu de coitado.

Há muitas maneiras de se vitimar. Podemos iniciar a nossa vida sendo vítima de nossos pais, depois de nossos irmãos, professores, amigos, patrões, cônjuge, trabalho, sociedade, doenças e por aí vai. Basta escolher a situação que se aplica melhor à fase que você estiver vivenciando. No entanto, não se esqueça que toda fase de vida é fase de crescimento; em cada uma aprenderemos coisas diferentes e indispensáveis ao nosso desenvolvimento e evolução. Se você se dispersar, adotando uma postura que lhe impeça ver as coisas da forma como elas são, de fato, e não como o seu olhar de vítima os vê, você estará desperdiçando uma valiosa oportunidade de crescimento. Com uma visão estreita da vida, apegada a pequenos ganhos secundários, a vítima abre mão de uma grande conquista – a expansão de seu potencial. Por trás de uma vítima tem sempre grandes “nós”; há uma série de sentimentos tóxicos e vivências mal elaboradas.  Vitimar-se é uma forma de justificar o nosso comodismo e a nossa covardia. Mentimos para o mundo implorando uma pena que nos transforma apenas em vilões de nós mesmos. 

Se você deseja ficar mais atento e corrigir esta postura em sua vida, a historinha do guerreiro perneta talvez possa lhe ajudar.



O GUERREIRO PERNETA



   Num pequeno vilarejo, onde a oferta de trabalho era pequena e a miséria grande, um funcionário do rei designado para escolher um guarda-costas para a princesa, viu-se, depois de dezenas de seleções, diante dos três últimos candidatos ao cargo. Restaram três últimos candidatos com características bem diferentes. O primeiro possuía uma estrutura física invejável. Alto, robusto e dotado de uma musculatura bem definida poderia, aparentemente,  proteger a princesa com sua notável força física. O segundo, apesar de não possuir uma estrutura física tão avantajada, possuía muitos conhecimentos. Era intelectualmente superior ao primeiro, no entanto, inferior em se tratando de força física. E o terceiro? Ninguém entendia como aquele candidato conseguira chegar à última eliminatória. Não era superior ao primeiro na força física e nem ao segundo em nível de conhecimento. Além desta inferioridade, era perneta. Que qualidade teria este candidato para proteger a princesa?

A última prova de seleção exigia que cada candidato subisse a topo do pico mais alto da região. Uma perigosa trilha poderia servir de referência. Até então, era o único caminho conhecido e seguro a ser percorrido. Quando voltassem, deveriam relatar a aventura passo a passo.

O primeiro a voltar foi o candidato dotado de notáveis conhecimentos. Relatou a sua experiência denotando uma grande frustração:

─Olhe como estou! Estou todo ferido e doído. Como é que vocês podem designar uma missão impossível a alguém. Estudei o mapa da trilha durante dias, segui o trajeto conforme o indicado enfrentando espinhos, pedras, sol e chuva para quase no final do trajeto me deparar com uma pedra enorme que bloqueia o caminho impedindo seguir em frente. Adoeci por causa desta prova, mas estou aqui, cumpri a minha parte. Sei que é impossível arrastar aquela pedra dali. Vocês me colocaram em risco, pois há muitos animais ferozes pelo caminho. Passei um dia inteiro em cima de uma árvore para me safar de um deles. Agora, estou com minha coluna toda doída. O que a gente não faz por uma princesa. E, ainda corro o risco de não ser reconhecido. Há mais dois candidatos tentando a mesma proeza. Aliás, encontrei um deles, bem folgado, debaixo de uma árvore descansando. Parecia não se importar em seguir em frente. Também, nunca acreditei na disposição dele para isto. Não vou falar quem é para não dizerem que estou fazendo fofoca. Enquanto ele descansava, eu lutava para concluir com êxito a minha prova. Estou desgastado, mas se Deus quiser este desgaste vai diminuir com o tempo. Vou ter tempo para descansar, pois, pelo visto, nenhum dos dois voltaram ainda. Inclusive, aquele alimento que vocês nos ofereceram não foi suficiente. Morri de fome, emagreci 5 quilos. Não sei como vou conseguir repor esta perda. Fiquei muito frustrado, me mordi de raiva por ter que voltar sem concluir a missão. Pensei em todos os conhecimentos que adquiri ao longo da vida para arrastar aquela pedra dali, mas ela era grande demais. Apesar de frustrado, fico feliz de ter sido o primeiro a voltar “são e salvo”. Não morri por um milagre. Espero que os outros dois consigam voltar vivos. Fico imaginando a cara deles ao se depararem com uma pedra daquele tamanho no final da trajetória.

─Valeu o esforço? Interrompeu o súdito do rei.

─Meu esforço foi em vão. É muito triste não conseguir aquilo que se deseja tanto. No entanto, se eu for recompensado por isso, vai valer à pena sim. Espero que vocês possam, no mínimo, reconhecer isto.

Depois de dois dias chegou o candidato dotado de força física. Foi solicitado a fazer o mesmo relato:

─Cheguei lá no alto e tinha uma pedra. Achei por alguns instantes que não conseguiria move-la, mas a minha força não me traiu. Consegui! Cheguei até o alto do pico, finquei a minha bandeira e estou aqui de volta. Acho que mereço este trabalho, pois venho de uma família humilde e tenho que trabalhar para sustentar a minha atual família. Estou com um menino doente, precisando de tratamento. Ele me faz lembrar a minha infância. Fui rejeitado pelo meu pai e minha mãe teve que tratar da gente com muita dificuldade. Não tive infância, pois tive que trabalhar desde pequeno. Eu adoecia muito, pois eu era desnutrido assim como meu filho. Depois, uma família de camponês teve dó da gente e deu trabalho para a minha mãe. Em troca dava comida para todos nós. Foi aí que saí da desnutrição e peguei este corpo. Estes músculos são fruto do trabalho pesado que me obrigaram a fazer. Eles exploraram a gente até o dia que minha mãe nos arranjou um padrasto que nos levou dali. Mas, este padrasto não nos deu nada , batia muito na minha mãe e na gente também. Eu já tinha força para enfrentá-lo, mas fui educado a não faltar com respeito. Ficava com muita raiva, mas não podia fazer nada. Minha mãe queria aquela vida... Sofremos naquela vida durante muitos anos, até que Deus resolveu levar aquele homem. Agora, sou eu quem mantenho a família. Casei-me, minha mulher também é doente e não pode me ajudar. Peço, encarecidamente, este trabalho. Provei que consigo enfrentar as durezas e os pesos da vida. Agora só falta o meu merecimento. Acho que mereço, não é?

O terceiro candidato demorou dois dias a mais para chegar. Muitos acreditavam que, talvez, tivesse sido devorado pelos animais selvagens da região devido sua fragilidade física e média intelectualidade. Antes que o tempo máximo determinado para concluir a prova fosse esgotado, apareceu exultante. Convidado a fazer o mesmo relato, pronunciou-se:

─Foi uma aventura emocionante! Iniciei a minha caminhada checando bem a quantidade de alimento e água que possuía, bem como os recursos que a região poderia me oferecer neste sentido. Procurei não desperdiça-los, pois sabia que ao longo da caminhada as coisas poderiam ficar mais difíceis. Sei que os maiores obstáculos nem sempre aparecem no início de nossa jornada. Assim, toda vez que encontrava árvores frutíferas, nutria-me e deliciava-me ao sabor das mais raras frutas. Carregava algumas comigo para oferecer, ao meu corpo sedento, o deleite de sabores agradáveis. Agradar ao paladar, também relaxa. Encontrei alguns animais perigosos durante o percurso. Aprendi a detectar as marcas de suas pegadas na terra. Isto me poupava confrontos sem que eu estivesse, de fato, preparado para os mesmos. Alguns, consegui espantar, pois acho desnecessário matar, a não ser por legítima defesa ou para matar a  fome. Quando me via sem saída, tendo como única alternativa matar, aproveitava a carne para fazer um excelente banquete. Mesmo não sendo tão saborosa quanto a carne que saboreio em minha casa, o sabor da sobrevivência que eu experimentava era, sem dúvida, irrecusável. Estabeleci uma rotina que não me esgotasse. Parava para descansar debaixo de árvores maravilhosas que me energizavam com sua sombra acolhedora e seu odor refrescante. Tomava meus banhos em lindos riachos que encontrava pelo caminho e apreciava a maravilhosa paisagem lá de cima. Quem está aqui em baixo, não pode imaginar como este vale é maravilhoso visto de cima. Temos que preservar esta beleza, pois é um verdadeiro santuário tudo isto aqui. Em meus momentos de meditação e relaxamento procurava equilibrar o desequilíbrio que percebia existir entre a minha mente e meu corpo. A minha mente deseja e pensa rápido demais, não dando ao meu corpo a possibilidade de se exercer no seu tempo. Inicialmente, minha limitação física deixava a minha mente ainda mais ansiosa. No entanto, os meus constantes exercícios de equilíbrio mente/corpo, permitiram aos dois fazerem as pazes e andarem no mesmo ritmo. Com seu ritmo equilibrado você se desgasta menos. O tempo que se gasta com estes exercícios, se ganha ao final da trajetória. Um guerreiro sabe que não deve usar toda sua munição já no início da caminhada. Assim, me poupei fisicamente e de todas as formas possíveis para chegar até ao final com vitalidade. De que adianta vencer uma guerra se destruindo? Encontrei pelo caminho um dos candidatos. Ele informou-me que no final do trajeto havia uma enorme pedra impossível de ser transposta. Não me desanimei. Pelo contrário, sabia que teria um grande desafio pelo frente e que, com certeza, eu daria conta de vencê-lo. Pensei em algumas estratégias que poderia adotar. Achei que seria conveniente criar, a partir daquele local, uma nova trilha. Mas, depois de muito pensar, cheguei à conclusão que estava me desgastando mentalmente, me preocupando com uma situação que não era um problema para aquele momento. Certo que não devemos nos ocupar daquilo que não aconteceu ainda, resolvi seguir em frente. O mais engraçado é que consegui chegar ao topo do pico sem encontrar nenhuma pedra que pudesse obstruir a minha passagem. Parece que Deus a tirou do caminho. Finquei a minha bandeira lá e voltei com mais experiência e satisfação por ter alcançado a minha meta. Desta forma, a volta foi bem mais fácil e rápida. É uma benção poder estar aqui relatando toda esta aventura para o senhor. Mesmo que eu não seja a pessoa indicada para este cargo de tamanha responsabilidade, me sinto cada vez mais responsável pela minha própria vida e digno de vivê-la.

—Isto quer dizer que valeu a experiência? Perguntou o súdito do rei.

—Não só valeu, como me sinto cada vez mais determinado e forte para enfrentar os novos embates que a vida me apresentar.

O resultado da seleção dos candidatos saiu no mesmo dia. Ninguém entendeu a lógica do mesmo, mas o sábio súdito sabia que só um verdadeiro guerreiro seria capaz de impedir a princesa de se tornar vítima de alguém.

—Venceu o perneta! Comentavam surpresos e irônicos as más línguas.







ESPAÇO DE REFLEXÃO





Qual dos dois você prefere ser? Qual dos sois está sendo?






A VÍTIMA
UM SER REALIZADO


Me sinto um coitado
Me sinto um privilegiado


Tem sempre alguém me perseguindo
Sou muito protegido


Meu karma é sofrer
Vim ao mundo para ser feliz


As pessoas gostam de me fazer ou ver sofrer
Sou muito amado e querido


Não tenho sorte na vida
Agradeço a vida que tenho


Ninguém me ajuda
Sou muito ajudado


Ninguém pensa em mim
Penso em mim com muito carinho


Eu não mereço este sofrimento pelo qual estou passando
Estou tentando entender como semeei e cultivei esta dor


As pessoas sempre tiram vantagem sobre mim
Não deixo ninguém me explorar


Deus se esqueceu de mim
Deus está sempre presente, embora eu, nem sempre, consiga percebê-lo claramente


Sou sempre o prejudicado
Zelo pela minha integridade e pelos meus direitos


Sempre saio na pior
Busco sempre o melhor para mim


Nunca recebi o que merecia
Só tenho a agradecer


Passei a vida inteira pensando nele(a) e agora é esta ninharia que recebo?
Foi muito gratificante ter me doado tanto. Sempre tive muito para dar.


Se ele(a) não fosse assim, eu seria feliz
Amadureci muito com o seu jeito difícil de ser


Ele destruiu a minha vida
Os meus alicerces são muito fortes e a cada dia edifico mais uma parte de meu ser com as pedras que me jogam


Ninguém me entende!
Eu me compreendo bem e compreendo a dificuldade das pessoas de me entenderem


A felicidade não existe
Sou feliz!


Estamos pagando pelos nossos pecados
Estou aprendendo com meus erros